5 motivos para NÃO empreender em Design Gráfico

No último post elencamos 5 fortes motivos para você, que está cheio de incertezas e vontades dentro da estrutura de uma empresa, chutar o balde e ir procurar qual é, afinal de contas, a sua turma.

Mas nada é perfeito. Antes de pedir para seu patrão conferir a próxima esquina em busca da sua pessoa, é bom que você saiba: tudo tem dois lados. E se existem 5 bons motivos para você ir embora, também existem (pelo menos) 5 para que você não saia.

Recomendo que se leia o primeiro artigo antes desse. Ele está aqui.

1 – Você terá liberdade

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Pois é. Você pode tudo. É dono do estúdio, do seu nariz, é maior e vacinado. A última palavra, em cada trabalho, é sua. Mas será que você está preparado para tanta liberdade? Tem certeza que seu discernimento é bom o suficiente para bater o martelo e mandar para o cliente, sem ninguém dar uma olhada, um pitaco, antes?

A liberdade total pode ser bem solitária. O ambiente do estúdio pode ajudar muito. Quando se está trabalhando por conta própria, muitos de seus amigos se tornam, mesmo que leais, concorrentes. Não é nem justo com eles pedir opiniões, pois uma opinião técnica tem preço, certo? Tenha certeza que seu trabalho está maduro.

Fora que, aquilo que parece uma benção, pode se tornar uma armadilha muito facilmente. Poder trabalhar a hora que quiser pode ser lindo. Mas seu cliente trabalha das 8 as 6 da tarde. Você não é muito útil pra ele as 3 da manhã. Ele quer falar com você, quer resposta no email.

Se no escritório você tinha um cafezinho, por sua conta você tem a geladeira, e a rua toda para satisfazer qualquer desejo. Uma saidinha para buscar inspiração pode emendar num passeiozinho no parque, um cineminha e uma balada. E o serviço lá, pegando poeira na sua mesa.

Disciplina é o melhor remédio. Se não tiver, nem tente.

2 – Pouca gente empreende no Brasil

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E tem motivo.

Empreender no Brasil é bem complicado. Vai ser necessário entender um pouco da burocracia, abrir legalmente uma empresa, enquadrá-la na modalidade certa, pagar mensalmente um contador. Emitir notas, saber quando e se deve contrair um empréstimo. E viver ainda assim com a incerteza de que está tudo correto.

Desligar o computador, colocar a mochila nas costas e ir para casa, sem perder um fio de cabelo pensando em contas, boletos, organização é uma delícia. Quando você é dono de empresa, é uma atribuição contínua, 24 por dia.

Você vai precisar pensar na empresa o dia inteiro. Em festas, encontros, reuniões de condomínio e caminhadas no parque. Todo mundo que você conhece é um ponto em sua rede que merece atenção e é um potencial repetidor do quanto você é bom e confiável ou não passa de um relapso bebum. Sua imagem estará mais relacionada com a de sua empresa do que com a de seus parentes.

Se você resolver ou precisar ter funcionários então, se prepare. É tudo multiplicado por 20. Pouca gente empreende no Brasil porque empreender é dificil, requer dedicação e talento. Analise se é o seu caso.

3  - Você terá contato direto com seu cliente

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Se você adora design, adora criação, adora cores, teu lugar é num estúdio. Se quer ser dono de uma empresa de Design você tem que gostar é de cliente. E eles nem sempre são fáceis.

E nem deveriam ser. Diferentemente de um profissional de atendimento, eles não falam sua língua. Não tem traquejo em design, não sabem o que é serifa. Seus cartões de visita estão em Comic Sans e eles vão ficar chateados quando você disser que mudar isso é condição sine qua nom para continuar o serviço. Eles pedem opinião sobre seus layouts para o filho do jardineiro ou para a companheira de academia. Eles mandam logotipos em GIF animado inserido num Excel dentro de um Power Point 1993.

Eles esperam que você se envolva com os negócios deles. Que você os conheça pelo nome. Você pode ter mais 200 clientes. Mas para cada um deles, você é o único designer, eles estão investindo no seu trabalho.

E você vai ter que lidar com eles. Vai ter que educá-los. Vai ter que amá-los. Eles são seu ganha-pão.

4 – Tudo depende somente de você

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Talvez o mais auto-explicativo dos itens. Pode-se ler de outra forma:

Nada fica pronto sem você. Simples assim. Todas as decisões, todas as iniciativas.

Se quiser gastar, gaste. Se quiser fazer um retirada maior, faça. Se quiser tirar férias, tire. Os riscos são seus. Esse controle todo pode deixar muitos preocupados, e interferir negativamente na hora de criar. Um sócio pode ajudar. Ou terminar de ferrar com tudo. Mas de novo, essa decisão é sua. É tudo culpa sua, não esqueça.

5 – Você não tem mais um teto

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Não ter teto é o lado bom de dizer: você não tem mais chão também. Se cair, é sem rede.

Uma condição inerente ao empreendedor é a ambição. Não confunda ambição com falta de escrúpulo. Mas sim, é necessário ter vontade de crescer para ser um bom empresário. Em alguns momentos, vai ser necessário arriscar mesmo. Tomar decisões com menos informação do que você gostaria.

Vai ser preciso sangue frio, e quem não tem essa característica pode ficar travado, sem conseguir decidir coisa alguma. Se por outro lado, a pessoa for o lado oposto da moeda, os resultados podem ser desastrosos. Quem arrisca em tudo, não sabe ser precavido, minimizar os riscos ao máximo, pode terminar a empreitada com a cara no chão, morrendo de saudades de um patrão.

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5 motivos para empreender em Design Gráfico

Todo mundo que já trabalhou em um estúdio, agência ou em uma área de design de empresas sabe que a vida do designer gráfico empregado não é bolinho.

A coisa mais comum do mundo é observarmos meio que de canto a ascenção de pessoas de outras áreas, enquanto ficamos anos a fio no mesmo lugar, especialmente porque não tem nem espaço para cima no organograma da empresa. Também é comum sermos subordinados de áreas que, na prática, não tem a ver com nosso expertise. Trabalhar em ambientes que não são próprios. Ter que se adequar a regras e restrições que as vezes só ajudam a encolher  nossa criatividade.

Em estúdios e agências, onde os patrões geralmente são da área, ou próximos dela, somos vítimas frequentes de jobs de última hora que teimam em ter deadlines perfeitamente posteriores ao feriado que você já tinha marcado com a galera de ir para Mongaguá. E geralmente são jobs importantíssimos de contas que a agência não pode perder. O risco é sempre você perder. No caso, o emprego.

Somos animais diferentes. Nem sempre somos entendidos. Temos ideias claras do que poderia ser feito. Por isso acho normal que um grande contingente de designers resolva, mais cedo ou mais tarde, tomar as rédeas da própria carreira e empreender ou frilar. Alguns ficarão nessa para sempre. Outros, voltarão à rotina de ingestão de pizzas frias sem banco de horas como um soldado volta da guerra pro colo da mamãe, satisfeito.

Hoje, no blog, quero listar 5 bons motivos para empreender em Design Gráfico (mas acho que vale para outras áreas também).

1 – Você terá liberdade

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Use as influências que você quiser, pesquise nos livros de sua preferência. O Diretor de arte não vai dar o toque final. Não vai se apropriar da sua ideia. Você pode produzir nas horas que é mais produtivo. Pode sugerir o que quiser, acessar qualquer site durante seu expediente. Paradas para cafezinhos, quitutes e o que mais você tiver na sua geladeira, quando você quiser.O espaço é seu.

E isso pode ter sim, muita influência na sua criação. Lidar com reuniões sem fim e sem propósito, jogar o jogo da política dentro da empresa. Dividir o ambiente com gostos e pessoas muito distintas pode te deixar irritado, preso, e por consequência, com dificuldade de criar. A própria sensação de relaxamento, falta de stress podem ter uma influência muito positiva em sua produção. Em sua empresa, suas regras.

Tudo aquilo que ninguém tinha dado uma chance para você mostrar vai poder ver a luz do dia.

2 – Pouca gente empreende no Brasil

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Por uma questão cultural e de panorama econômico, somos um povo pouco empreendedor. Isso significa menos concorrência.  É claro que existem muitos designers no mercado tentando a sorte. Mas existem nichos pouco explorados. E clientes que precisam de atendimento.

É a sua chance de mostrar que tem diferenciais e conquistar seu lugar no mercado. Se sua rede de relacionamentos é diversificada e você conhece seus pontos fortes e fracos, pode estabelecer laços importantes e a sua empresa pode crescer rápido

3  - Você terá contato direto com seu cliente

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Sabe aquele briefing que saiu da mesa do diretor da empresa, passou pelo marketing, que contratou a agência onde você trabalha, falou com a secretária, com o dono, que passou pro tráfego e caiu no seu colo? E que, depois que você faz a arte precisa da aprovação do cara que iniciou o processo todo. Justamente ele que pediu que o logo fosse “bacana”, mas que depois de todo o telefone sem fio, você acabou entregando “banana”. E claro, vai ter que refazer, pra ontem, e durante o feriado.

Então, por um bom tempo, a não ser que você tenha dinheiro para começar contratando meia dúzia de profissionais, esse pesadelo acabou. Você vai falar diretamente com seu cliente. Com o tempo, aqueles que se tornarem mais habituais poderão virar amigos, e você poderá atingir uma sintonia de pensamento e um grau de envolvimento com a marca que poderá lhe poupar muito retrabalho.

Se fizer seu trabalho direitinho, deverá se tornar gestor da marca, e realmente influenciar e ser ouvido na administração dela. Depois que você se torna dono de seu próprio estúdio, pode aumentar o leque de detalhes e arriscar mais. É bastante gratificante.

4 – Tudo depende somente de você

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Eu sei como é frustrante trabalhar num micro velho, sabendo que se poderia fazer o investimento num novo, que vai te proporcionar mais agilidade e segurança. Ou como é desgastante usar versões antigas dos softwares, já que os novos tem tantos recursos que ajudariam.

Como empreendedor, é você que decide quando proceder com esses investimentos. E uma série de outros. Desde que banco sua empresa será cliente, se vale a pena pegar uma linha de crédito para ajudar, de quanto vai ser seu fluxo de caixa.

No fim das contas, tudo que você fizer de certo tem um único autor: você. Para mim isso foi muito recompensador. Sempre tive a impressão que eu passava a vida ganhando respeito, contas e respeito para meu empregador. Depois que me tornei empresário, este é um patrimônio meu, do qual não abro mão. Se as horas perdidas e o suor são minhas, creio que os tapinhas nas costas, louros e lucros também devam ser.

5 – Você não tem mais um teto

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Um dos fatores determinantes na minha decisão de abrir uma empresa era a incômoda sensação, que é bem mais forte na nossa área, de que o topo da sua carreira dentro da organização onde você trabalha está ali. Ali mesmo, na sua frente, na figura do seu Diretor de Arte. Quanto ele ganha? Quanto ele trabalha? Qual o nível de decisão dele na empresa? Proporcionalmente, é o máximo que você vai conseguir quando (e se) estiver ocupando o lugar dele. Quase sempre o organograma de uma área de design ou criação tem dois ou três degraus (contando o estagiário). Se você trocar de empresa, vai trocar quase que somente a cara do diretor. Mas a realidade é bem parecida. Designer junior, pleno e Sênior são muito mais ligados a tempo de janela do que alçada de decisão dentro de uma empresa.

Outras carreiras nem sempre são assim. A área administrativa tem escadas intermináveis para se galgar. E várias empresas têm diretores com muito poder nas mãos, decisão de fechar e abrir, benefícios e mordomias crescentes, respeito e até temor por parte dos subordinados (não que eu goste disso, é apenas o que é).

Nunca fui fã de limites. Não é tanto uma questão de querer. É de poder querer. Sendo dono do seu negócio, você decide até onde está disposto a ir. Que direitos quer sacrificar. Que apostas quer bancar. E de quais quer fugir. Se tudo der certo, você pode ir longe.

Até agora falamos sobre os motivos para se empreender. A decisão parece fácil.

Mas ainda não vá procurando a carteira de trabalho para pedir demissão. Pois este artigo tem uma continuação, na semana que vem, que se chamará “5 Motivos para não empreender em Design Gráfico”. Até lá.

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Trabalhando de graça

Hoje, uma amiga designer compartilhou comigo essa matéria, que saiu no Pequenas Empresas, Grandes Negócios. Ela mostra um Webdesigner que resolveu parar de cobrar pelo seu trabalho, e diz que não se arrepende.

Na verdade, ele parou de dar preço. Ele “aceita” presentes e a quantidade de dinheiro que seus clientes dizem que seu trabalho vale. É no mínimo arriscado, mas segundo ele, é um modelo de negócios que está funcionando.

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E aí, designers? Será que isso funcionaria por aqui? Será que isso funciona por lá?

Antes de mais nada eu me perguntaria quais são as aspirações do sujeito. Fazer caridade ou viver bem. E o que significa viver bem para ele. Não se esqueçam, os Estados Unidos são a pátria do movimento Hippie.

Talvez ele esteja se dando bem, trabalhando a troco de presentes… Mas é possível planejar a vida dessa forma? Talvez, se o governo paga uma boa escola pro seu filho, e você ainda não pensou em como vai mandá-lo pra faculdade. Talvez, se você tem transporte público de qualidade e não tem medo de precisar voltar pra casa de bote. Talvez, se você ganhou uma casa própria ou não tem intenção nenhuma de ter. Muito “talvezes”.

No fundo é uma questão de educação. Adrian parece ter confiança em seus clientes, e isso é muito bom. Isso mostra um nível de refinamento dos clientes invejável mesmo. Aqui, fico pensando em um monte de gente que nunca pensou em ter um site, e que faria fila para me dar a oportunidade de presenteá-los a troco de um porta-retratos e um mouse pad. Se estamos lutando para incutir o valor de nosso trabalho dentro das mentes de nossos clientes (e isso já está sendo dificil o suficiente), porque dá-lo de graça ajudaria nessa tarefa?

Sabe o que provavelmente aconteceria? Adrian olharia para a fila de gente querendo sua caridade, e começaria a triar as pessoas de acordo com quem tem mais chance de lhe dar um presente, digamos, mais substancioso, ou que ele esteja precisando no momento. A ordem das prioridades aos poucos se alinharia com as  necessidades do designer. E pouco a pouco o sistema iria pro saco. Porque a própria concepção do que é um presente está em não olhar os dentes do cavalo que se acabou de ganhar.

Desculpem, mas por mais bem intencionado que o rapaz seja, a iniciativa dele não tem chance de se espalhar, a não ser que contamine a sociedade toda. E o médico, o advogado, o engenheiro e o açougueiro passem a aceitar presentes também. Mas aí, teríamos dúvidas como “quantos gramas de presunto valem um site?” ou “porque você obturou meu dente por um saco de cimento se só cobrou uma massagem holística dela?”. São questões válidas, sem resposta, e, em última análise, o real motivo pelo qual a sociedade criou este ser diabólico chamado dinheiro.

Dinheiro é um problema. Mas ainda não achamos uma solução melhor.

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A grande batalha dos Super Heróis

Durante toda minha infância, adolescência e boa parte de minha juventude, quadrinhos eram coisa de gente estranha. Gente que aparecia em filmes como “A Vingança dos Nerds”. Apesar de serem os mocinhos do filme, ninguém queria ser aquilo.

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De repente, às vesperas do ano 2000 chegar, todo mundo descobriu que amava Super Heróis. E tudo começou com dois filmes: X-Men, de Bryan Singer em 2000, e dois anos mais tarde, Homem-Aranha, de Sam Raimi. Blade também teve um papel nessa história, mas pouca gente sabia que era um personagem de quadrinhos, então vou deixá-lo de fora da análise. Os filmes tiveram várias sequências, faturaram alguns caminhões de dinheiro, e despertaram o interesse dos produtores para um filão que vinha sendo ignorado.

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É preciso contextualizar esse mercado. A grande maioria dos heróis de primeiro escalão, esses que todo mundo conhece, está concentrada nas mãos de duas produtoras americanas: A Marvel e a DC Comics. Até então, a DC havia feito escolhas melhores que seu concorrente. Tinha no portfólio os filmes do Superman (os bons e os ruins), os do Batman (que fizeram muito sucesso na época). Por piores que os filmes da DC possam parecer, analisando pela ótica de hoje, nenhum deles era tão ruim quanto as bombas que a Marvel fazia na época, como o Justiceiro com o Dolph Lundgrem e um Capitão América que dava vergonha de olhar pra capa do DVD.

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Depois dessa renascença dos heróis no começo da década de 2000, tivemos algumas boas produções, e a verdade é que a DC acertou o tom com seu Batman Begins, e errou bastante em Superman Returns, mas a mudança de verdade veio com Homem de Ferro em, 2008. E veio na forma de uma cena pós-creditos, onde Samuel L. Jackson, no papel de Nick Fury, alertava Tony Stark sobre o fato de que ele não era o único super-cara daquele universo. Parece que não, mas aquilo mudou TUDO.

Passados mais de 5 anos, o panorama mudou muito. A Marvel tem uma posição estabelecida e consolidada, mas parece não tirar o pé do acelerador, sem dar tempo pra ninguém respirar. A DC está se movendo mais lentamente. Neste artigo, queria analisar as estratégias de marca das duas empresas, e ver os acertos e erros de cada uma.

Reconhecimento

A Marvel descobriu o que todo fã de quadrinho já sabia. Se você vai adaptar um personagem que tem décadas de reconhecimento e um cabedal de fãs pendurados nele, porque não tentar ser fiel ao material fonte? Pouco tempo antes da onda de Heróis dominarem as telas, vimos layouts criados para filmes que quase foram produzidos. Os estudos do Superman de Tim Burton e o Homem Aranha de James Cameron podiam ser qualquer coisa, menos os heróis dos quadrinhos. Eram adaptações livres demais.

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Sam Raimi conseguiu fazer um uniforme e visuais muito similares aos dos quadrinhos, e mesmo os X-Men, que não adotaram essa virtude na forma, conseguiram fazer no conteúdo, que é bem parecido. Além disso, encontraram encarnações perfeitas do professor Xavier e Wolverine.

Quando Iron Man estreou, a armadura escolhida para o filme era uma cópia exata da que vinha sendo mostrada nas páginas, feita inclusive, pelo mesmo artista conceitual, Adi Granov, que a Propósitto entrevistou aqui.

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As duas companhias tem (ou tinham) visões distintas quanto ao manejo de suas franquias. A Marvel optou por fazer com que os quadrinhos ditassem o tom dos filmes. Já a DC entregava os personagens à visão de seus diretores, desde sempre. Isso deu certo com Superman de Richard Donner, que carrega todas as características do diretor. E também com Batman de Tim Burton (que visto sob desta maneira funciona bem). Mas é terrível nos filmes de Joel Schumacher, na Mulher Gato, do Pitof (??) e no maldito Lanterna Verde, do Martin Campbell.

Ainda que os filmes da Marvel tenham suas diferenças (basta comparar os 2 Thor), neles o personagem é mais importante que o diretor.

Consistência

Outro grande acerto da Marvel. Não deixar a peteca cair. Cada filme traz um gancho para outro. Todo ano temos pelo menos um lançamento da Marvel. Além disso, a Marvel criou o conceito de grandes arcos. Ainda que os filmes contem histórias isoladas, nada é totalmente apartado, e cada filme constrói uma peça para um climax já anunciado. No caso, os filmes dos Vingadores. Atualmente, a Marvel já está em sua segunda fase, da qual fazem parte Thor 2, Capitão América 2, Guardiões da Galáxia e Homem Formiga, culminando com Vingadores 2: Era de Ultron. É mais que um calendário, é um compromisso com seu público.

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Enquanto isso, a DC, que poderia explorar mais ainda esse conceito de unidade, apostava em filmes solo, como os ótimos (bom, menos o terceiro) filmes do Batman, sempre com um pé atrás nessa questão. Ela chegou a ter um seriado de razoável sucesso, Smallville, que inclusive introduzia diversos personagens do seu universo, mas sempre preferiu mantê-lo como uma mitologia paralela, e pra desespero dos fãs, que viam Tom Welling como uma boa opção na época para viver Superman, nunca colocou o cara num uniforme de verdade.

Carinho pelo material fonte

Verdade seja dita. A Warner, dona da DC Comics há muitos e muitos anos, estava cuidando de sua galinha dos ovos de ouro, chamada Harry Potter. Não dá para culpá-los, os filmes fizeram quantidades nababescas de grana. E foram produtos bem realizados. A DC, nesta época, era um patinho feio. Mas eis que, veja só, os livros do bruxinho eventualmente acabaram, e a Warner precisava ordenhar alguma vaca, e Chris Nolan estava mandando bem com os Batman…

Já a Marvel passou a ser uma divisão independente dentro da Disney. Suas prioridades eram seus próprios personagens. Por isso o plano consegue ser tão bem executado.

Chapéus

Para que algo dê certo, precisa ter dono. Em grandes corporações, isso tende a se perder. Em produções cinematográficas, mais ainda, pois cada diretor tem sua visão, e cada produtor quer puxar a sardinha para suas preferências. A Marvel resolveu o problema, colocando todas as franquias nas mãos de um cara só. Na primeira fase, antes da compra pela Disney, esse cara era Avi Arad, que produzia os filmes da própria Marvel, mas também opinava nas franquias que já tinham sido vendidas para produtoras externas, como a Sony (Homem Aranha) e a Fox (Quarteto Fantástico e X-men). Ainda que não tenha garantido bons filmes todo o tempo, pelo menos garantiu que os personagens não fossem esquartejados.

Kevin Feige

Kevin Feige

David Goyer

David Goyer

Atualmente esse nome é Kevin Feige. Depois do sucesso avassalador de Vingadores, Joss Whedon apita muito, mas não é dono da decisão final.

A DC está tentando fazer com que Christopher Nolan seja este cara. Mas eu não creio muito. Nolan é muito ocupado e muito autoral para dar conta, e a bola tem ficado mesmo nas mãos de David Goyer, que apesar de ser um bom escritor, tem altos e baixos na carreira. Ao lado de Nolan é ótimo. Sozinho (vejam Blade 3), nem tanto.

Futuro

Essa é uma pergunta com uma só incognita, e ela vem da DC. O futuro da Marvel está com sua linha mestra lançada, ainda que a produtora ofereça surpresas como a mini série do Demolidor pela Netflix, ou um possível filme do Dr. Estranho ou Pantera Negra, sempre trazidos a baila. Mas já sabemos que, a menos que algo saia dos trilhos, teremos um Thor 3, um Capitão 3 e um Vingadores 3.

A DC parece ter sentido o golpe, e Man of Steel atesta essa ideia. O filme já aponta com uma série de possibilidades, e o anúncio de Batman Vs Superman com participações de outros heróis, desembocando num filme da Liga da Justiça pode fazer a mágica pela DC. Mas logo quando as coisas pareciam nos eixos, já temos uma postergação de um ano em sua data de estreia. Pode significar lançar um filme muito mais bem pensado, mas pode também significar uma briga com uma Marvel mais forte ainda. Só o tempo dirá.

Claro que a DC deve ter gente mais capacitada que eu em seus quadros. Mas se as decisões fossem minhas, eis o que eu faria:

• Larguem de mimimi, e apresentem seus planos. Todo esse segredo só transparece falta de planejamento.

• Mostrem logo uma foto de Affleck vestido com o uniforme. O hype negativo está crescendo, e se demorarem muito, vão ter que apresentar o quinto milagre de Fátima pra conter.

• Trabalhem em curtas metragens, com personagens menores. Isso ajuda na espera que os fãs precisarão aguentar até 2016. Quem sabe curtas em CGI, na mesma qualidade daqueles que vemos nos cinemáticos de jogos como Batman Arkham City.

• Arrumem algum jeito de fazer esses personagens continuarem dando as caras nesse meio tempo. Sem exagero, mas com consistência.

• Usem os quadrinhos e a divisão de desenhos animados a seu favor. A DC sempre teve excelência em animação. 

Por enquanto não há como negar, nesse crossover, os Vingadores estão dando o maior pau na Liga da Justiça. Mas o tempo pode mudar muita coisa.

 

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Portfólios absurdos: Walt Kelly

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Assistindo ao documentário sobre Calvin e Haroldo, que ainda vai render um post, topei com uma das grandes referências de Bill Watterson. Confesso minha ignorância. Não conhecia Walt Kelly. Pelo menos não profundamente, porque algumas de suas criações já haviam chamado minha atenção.

Walter Crawford Kelly, Jr. nasceu dia 26 de agosto de 1913,  na Filadélfia. Trabalhou como repórter e fez charges em jornais até 1935, quando foi para A Disneu, desenhar o Pato Donald. Acabou no departamento de animação, onde ajudou a criar filmes como Pinocchio, Branca de Neve, Dumbo e o Dragão Relutante.

Saindo da Disney foi para a Dell Comics, onde desenhou HQs para crianças. Foi nesta empresa que ele criou sua obra mais importante e influente, Pogo, o Gambá. A tira contava as histórias de bichinhos que viviam num pântano, mas por trás dos desenhos fofinhos havia um forte componente político e filosófico.

Kelly fez sucesso na época de ouro das tiras de jornal, onde o caderno de quadrinhos era enorme, e as tiras ocupavam páginas inteiras, e era possível ver artes detalhadas e lindíssimas. Seu traço é realmente lindo, detalhado e preciso e dá pra perceber que alguns criadores beberam de sua influência, do já mencionado Bill Watterson a Jeff Smith, de Bone.

Veja alguns exemplos de seu trabalho abaixo (clique para ampliar, vale a pena):

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Mais de 100 mil designers

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Língua de Cobra: Esse povo está todo descontente?
Saruman: Você não viu nada. Aqui só tem 30 mil, os outros 70 mil estão atualizando o behance, e já vem.

Poucas vezes a gente tem um ponto de virada tão bem delineado em nossas vidas. Para este blog, este ponto foi no dia 7 de junho deste ano, quando coloquei no ar o artigo “Escolhi uma Profissão de Merda, E agora?” . Ele foi realmente o primeiro a arrebentar todas as minhas expectativas.

Hoje, pouco mais de 5 meses depois de seu lançamento, o post continua gerando interesse, e movimentando as engrenagens. Mais de 125 mil pessoas já o visitaram. Para alguns blogs e sites, estes talvez não sejam números assim tão expressivos. Para mim, são preciosos. Digo isso porque este não é um post do tipo “50 sites vermelhos para sua inspiração”. É um post relativamente longo, que trata de um assunto espinhoso, e que não costuma deixar quem o lê no melhor dos humores. É um desabafo de alguém que já está há algum tempo no mercado e até enxerga as melhoras que vão se acumulando nesses anos, mas que sabe que o ritmo poderia ser mais lebre, menos tartaruga.

Este mesmo post me levou a apresentar uma palestra do outro lado do país, e pelas discussões pude perceber que o problema é nacional, não localizado. E que talvez, quanto mais restrito o mercado, pior para o designer.

Quem teve paciência de ler a enxurrada de comentários, com certeza teve uma experiência mais completa sobre o assunto. São dezenas e dezenas de mensagens que completam aquilo que eu falei, expõe uma realidade que vai além do mundo do design gráfico, e incluem fotografia, design de produto, ilustração, moda e até mesmo dança.

Uma delas me chamou a atenção pois questiona se essa não é uma demanda do país como um todo, já que estudos recentes mostram que 70% dos brasileiros estão insatisfeitos com seu emprego. Eu olharia esta informação com cuidado. Por um lado, é do jogo estar insatisfeito com seu trabalho. Todos nós, em alguma fase, em algum emprego, estivemos. Já a pesquisa a qual me refiro trata ESPECÍFICAMENTE da nossa área, não é generalista.

Respondi à pessoa que na verdade, não posso responder pela insatisfação de um bibiliotecário com sua profissão, pois não sou bibliotecário. Mas não posso deixar de pontuar minha insatisfação com o design (que é minha profissão) apenas porque um bibliotecário também está insatisfeito com a profissão dele.

Algumas pessoas (não muitas) acharam que talvez eu tenha estereotipado demais o designer. Queria dizer que é isso mesmo que usei: um estereótipo. Mas que não é meu, é do público em geral. É preciso lidar com cuidado com essa imagem que muitos tem de nós. Jamais defenderia que o correto seria nos tornarmos da noite para o dia um exércitos de Mórmons munidos de iPads debaixo do sovaco, a espalhar a palavra da salvação do design de porta em porta, perguntando “A senhora já ouviu a palavra da Bauhaus hoje?”. Não. Somos criativos, trabalhamos com expressão, e ganhamos o DIREITO de nos expressar desta forma, seja no vestuário, nas tatuagens ou no tamanho da barba. Mas se você tem algo a expressar, EXPRESSE. Cuidado para não virar uma caricatura de si mesmo. Isso sim, é meio ridículo.

Alguns me perguntaram porque eu peguei no pé dos torneiros mecânicos. Gente, não tem depreciação a nenhum torneiro mecânico no texto. Era apenas um contraponto ao trabalho do designer. Design é uma área glamurisada, criativa e mal-paga. Tornearia mecânica por outro lado, não exige tanta criatividade, tem pouco ou nenhum glamur, mas por outro lado tem demanda, e podem crer, SALÁRIO e VALOR no seu mercado. Um bom torneiro mecânico pode fazer uma carreira e salários verdadeiramente invejáveis para qualquer designer. Caramba, pode virar até presidente.

Muitas pessoas desistiram da carreira. Isso tem um lado triste, quando se pensa que bons profissionais poderiam estar se realizando. Mas aposto um Whiskas Sachê que, se de uma forma ou de outra, essas pessoas ainda estão visitando blogs de design por aí, é porque o bichinho da criatividade ainda está mordendo suas entranhas. Meu conselho: não nos deixem! Aproveitem as vantagens que a internet proporciona hoje em dia, e continuem fazendo trabalhos criativos. Acho que, sem a pressão do lucro, deve ser mais bacana ainda. Só que aí, não é design. É arte. E a gente precisa tanto de arte…

Por fim, me perguntaram se existe luz no fim do túnel. Essa resposta eu só posso dar hoje, depois de ver mais de 125 mil pessoas se reunirem em torno de um tema. Este blog não é muito visitado por administradores de empresa e engenheiros, então quero crer que boa parte desse povo é gente da gente. Gente que está todo dia na lida, FAZENDO e CRIANDO um mercado que toma proporções cada vez maiores. Gente que mora num país que precisa DESESPERADAMENTE de design de boa qualidade, principalmente quando nos deslocamos um pouco pra fora do eixo das capitais. Gente que quer fazer design mas quer ter grana e tempo pra viajar, pra por filho no colégio, comprar casa, carro, levar a família na cantina pra comer uma massa esperta no fim de semana. Que quer ser designer prafrentex, ou careta, como tem em qualquer profissão. Gente que quer ser popstar ou anônimo, não importa.

Quantos designers existem no Brasil? Não tenho dados para responder essa pergunta. Mas posso apostar que 125 mil pessoas fazem diferença nessa conta. E se este artigo tiver ajudado a rever alguns poucos hábitos que cada um tem, com certeza, alguma transformação ele vai gerar. E então, eu é que preciso agradecer a cada um de vocês por ter visitado este blog.

Longa vida ao design e aos designers.

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Guia de salários 2014. Se não é brasileiro, pra que ler?

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O The Creative Group liberou seu guia anual de salários para 2014.

O grupo, que é um serviço de recrutamento especializado na área criativa, disponibiliza a pesquisa todos os anos. Dá uma inveja enorme.

Primeiro, por ver que existe um serviço especializado nessa área. E depois, por ver um grupo que, num primeiro momento poderia facilmente jogar o jogo do patrão, agir com uma transparência exemplar, que ajuda tanto um lado quanto o outro.

O relatório tem muito pouco a ver com nossa realidade. Porém, as tendências que despontam lá geralmente chegam aqui. Você pode fazer o download do Guia aqui. Apesar de não podermos usar a tabela a nosso favor no momento de uma entrevista, ler essas tendências e tentar entender um mercado que maduro como o americano  pode nos ajudar em nossas reflexões.

Na primeira parte do documento, o TCG lista algumas tendências profissionais para a área. Vejamos:

1 – Existe uma robusta demanda por talentos na área digital

Aqui temos uma realidade parecida. Falta gente realmente criativa e experiente para trabalhar com Desenho de Interfaces, front end e afins. Mas as semelhanças param aí. Segundo o texto, os profissionais desta área estão recebendo ofertas múltiplas de emprego, e as empresas estão fazendo todo o possível para reter seus talentos.

2 – Mobile ainda está super quente

Por conta do crescimento do mercado, as empresas consideram esse profissional imprescindível.

3 – Agências estão a pleno vapor

As marcas estão numa briga constante para manter suas marcas relevantes. E acreditam que a melhor estratégia para isso é ter parceiros sólidos, com os quais possam contar sem medo, a qualquer momento. Gente que conheça suas marcas profundamente. Por conta disso, os estúdios estão investindo em staffs permanentes, para dar conta. Estão procurando especialmente pessoas que tenham uma mistura de competências técnicas e criativas.

4 – Empregados estão cada vez mais propensos a considerar caminhos novos

Profissionais que já tem um certo respeito no mercado estão muito mais abertos. Consideram trocas de ambiente de trabalho, e mesmo de rumos na profissão, muito benéficas, mesmo que isso signifique deixar um trabalho estável para trás. Consequentemente, os gestores estão dobrando os esforços para manter os talentos. Sim, isso significa a inclusão dos profissionais em distribuição de lucros, bonus e condições de trabalho.

5 – Freelance e contratação full time estão em alta

As organizações estão trazendo freelancers com mais frequência. E por periodos cada vez mais longos de tempo. É uma forma de aliviar a carga de trabalho, e trazer competências que não existem internamente. Como um segundo passo a isso, as empresas estão oferecendo cada vez mais posições em tempo integral, e como consultores para os freelancers.

Mais alguns dados interessantes:

52 % dos profissionais entrevistados dizem que pretendem trabalhar de forma independente em algum ponto da carreira.

43 % acham que houve um ganho no calibre dos profissionais criativos nos últimos 5 anos

31 % acham que este calibre aumentou consideravelmente.

52 % acham que criativos top de linha são muito difíceis de se encontrar no mercado.

E os salários?

Para ver uma lista completa, melhor fazer o download da lista, que é bem grande. Vamos pinçar aqui alguns dados interessantes:

Um Diretor de Arte, com mais de 5 anos de experiência, ganha entre 70 e 102 mil dólares anuais.

Um Ilustrador, com mais de 3 anos de experiência: entre 53 e 75 mil dólares anuais.

Designers Gráficos:

+ de 5 anos de experiência: 63 – 85k (US$)

3 – 5 anos de experiência: 50 – 69.5k (US$)

1 – 3 anos de experiência: 37 – 54.5 k.

Um presidente de agência: 136 – 202k (US$)

O relatório mostra quais são as competências mais procuradas em um profissional pelas empresas, independente da posição que está em jogo:

1 – Experiência no segmento

2 – Visão Analítica

3 – Expertise em Midias Sociais

4 – Habilidades em programação

Benefícios

Segundo as pesquisa, sobre o que as empresas oferecem normalmente como benefícios aos empregados (não cortem os pulsos).

77% – Planos de saúde/ Dental

71% – Plano de economias/ previdência privada

56% – Treinamento e Educação Subsidiadas

52% – Horas de trabalho flexíveis

39% – Bônus/ Participação nos lucros

E eu com isso?

Como eu disse, há muito mais no relatório para ser lido. Em comparação com nossa realidade, é um exercício masoquista. Mas é importante ler o relatório para que possamos ter algo como base de comparação. Parte dos problemas que enfrentamos são decorrentes de nossa legislação esquizofrênica, que acaba sempre punindo patrões. Mas sabemos que isso não explica tudo.

Outra coisa é perceber os meandros do mercado. Eu acho interessante notar o valor que está sendo dado a um freelancer. Ver que a empresa o considera como uma verdadeira solução, e não como um remendo, um quebra-galho.

Ver a imensa lista de cargos é também revelador. Mostra que há segmentação no mercado. Que os criativos estão preferindo entrar mais fundo nos assuntos que dominam do que ser um generalista por natureza. Aqui, até para podermos nos manter financeiramente, as vezes temos que abraçar tudo que aparece. Interessante saber que o salto monetário entre um diretor criativo e o presidente da empresa não passa de um salário. Isso deve manter a distância entre um e outro gerenciável, e não criar abismos sociais e culturais intransponíveis entre eles.

Também fica claro que os tempos de crise estão ficando para trás. O mercado americano já levou o golpe, já se recompôs, e está a toda. Aqui, tivemos nossa chance, já que houve um período de bonança, que está ficando pra trás. Resta saber o que ficou desse período. Meu chute é: muito pouco.

O que mais grita é a própria existência de um mercado especializado. Que se conhece, que sabe e compartilha suas semelhanças e diferenças. Por mais selvagem que um mercado como o americano possa parecer, a impressão que temos é que ele se auto-regula e se reinventa. Com certeza, num relatório como esse não aparecerão as falhas desse mercado. Essas, teremos que pesquisar para conhecer, e serão tão importantes quanto.

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Respondendo à Carol Buffara

Olá Carol,

recebi seus tweets, achei-os amáveis e bem escritos.

Aceitei seu convite, e visitei seu site para entender melhor o que você faz.

Antes de mais nada, peço desculpas se a caracterizei mal. Usei o termo blogueira porque você tem um blog, acho que pensei em modelo porque vi fotos suas em editoriais, e celebridade porque, bem, é um cunho usado hoje em dia para quem aparece com certa frequência na mídia, de uma maneira ou de outra. Não quis ser pejorativo.

Na verdade, usei todo o buxixo em torno do acontecido para dar minha opinião sobre a forma que pessoas vêem profissões como designer e ilustrador no mercado. E o que quis dizer sobre todo o imbroglio é que não adianta jogar toda a culpa da situação sobre um caso ou uma pessoa. É preciso que os próprios profissionais passem a agir de forma diferente, e isso significa mudanças culturais mais profundas e em casos muito mais difíceis do que o seu.

Você me diz que é fácil perceber que não é o tipo de pessoa que precisa pedir nada. E eu acredito. Sem conhecê-la pessoalmente, fica claro ver que não é esse o caso. Mas posso te garantir que a grande maioria das propostas indecentes que recebemos vem de pessoas que não precisariam pedir. Pode confirmar com qualquer profissional da área. O que acho, aí sim, é que ainda que você não quisesse isso, acabou dando essa impressão. Penso também que não é sua obrigação saber como fazer. Essa obrigação é dos profissionais, que deveriam saber se apresentar da maneira adequada.

Ressaltando, acho mais grave a atitude de certos players do mercado (como agências e editoras) que de maneiras mais ou menos explícitas, arrancam o couro dos profissionais, sendo que elas sim, tem a obrigação de saber lidar com eles, pois fazem parte do mesmo ciclo produtivo. E com isso, acabam contaminando diversos setores da sociedade, gerando um ruído que atrapalha a real compreeensão de nosso papel na sociedade.

Por fim, quero agradecê-la pelos elogios, parabenizá-la pela maneira cortez que respondeu a eventuais críticas e me colocar a disposição se puder ajudar em alguma coisa.

Cordialmente,

Rodrigo Teixeira

 

 

 

 

 

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Liberdade de Expressão. Cuidado.

Não sei se design é arte. Pelo menos não sempre.

Às vezes, até é.

O que eu sei é que é uma forma de expressão. Pode se passar muita mensagem pelo design, muitos afagos e socos podem sair de um cartaz ou ilustração.

Sei também que o Brasil tem inúmeros problemas. Mas não tem preço saber que posso abrir meu blog e me expressar, sem ter medo de que alguém que não goste do que leu, e com mais poder do que eu, decida que eu preciso de um corretivo. Poder fazer isso é a maior conquista desde que saímos da repressão.

Por isso levo muito a sério qualquer tentativa de cerseamento dessa liberdade, e você, designer, ilustrador ou cliente, deveria também.

Esse é o motivo da criação desta campanha que soltamos hoje. Para que tenhamos muito, muito cuidado antes de modificar aquilo que, mesmo que não perfeitamente, está funcionando.

 

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Proposta Indecente: muito além do caso Carol Buffara

Num filme bem famoso dos anos 90, dirigido pelo sumidão Adrian Lyne, um ricaço interpretado por Robert Redford conhece um casal em algum lugar que minha memória me impede de lembrar, e acaba se encantando pela moça. Como o cara é um empresário muito prático, chama o casal para uma conversa, e sem rodeios, coloca na mesa uma proposta arrebatadora: Um milhão de dólares por uma noite com a garota (Demi Moore).

O casal balança, se ofende, acha estranho, e por estarem passando por uma crise financeira, acaba cedendo. Ela aceita a proposta, e descobre que além de rico, o sujeito é um gentleman extremamente interessate. Na sequência, se me lembro bem, o marido não consegue lidar bem com a escolha. O fantasma da noite que a esposa passou fica em sua mente, e eles acabam brigando. Ok.

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Me recordo que o filme gerou acaloradas e indispensáveis discussões de mesa de boteco. Dois amigos meus soltaram aquelas que eu acho serem as melhores tiradas sobre o assunto. O primeiro disse:

“Indecente? Você receber UM MILHÃO de DÓLARES pra passar uma noite no Iate do Robert Redford? Indecente seria se ele fosse o Danny DeVitto e a moça tivesse que cumprir o tal contrato em Águas de Lindoia, num motel meia boca.”.

O outro ainda emendou:

“UMA MILHA pra ficar uma noite com o Robert Redford? Meu amigo, me dá 500 mil e eu tenho um relacionamento sério com ele”.

Brincadeiras à parte, o fato é que em qualquer dos casos, a proposta é indecente. Ela de te avilta, revira seus valores, tira seu sono, porque te oferece algo que em tese você precisa, mas te coloca numa situação que você preferia não estar.

Esta semana fomos confrontados com uma versão tupiniquim de uma proposta dessas. A moça da foto aí embaixo se chama Carol Buffara, e até onde entendi, é uma blogueira, ou personal trainer, ou ambas. De qualquer forma, é uma celebridade (com c minúsculo) brasileira que saiu com essa pérola:

“Ilustradores talentosos desse nosso Brasil, e pq não mundo?! Estou em busca de vcs! Então quem tiver interesse pode mandar uma ilustração inspirada em mim para ilustracao.carol@gmail.com (Ainda não posso dizer para o que é, segredo!) Aguardo ansiosamente….#projetocarolbuffara”

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Não demorou para o fato cair nas redes sociais, e gerar um divertido Tumblr de gente oferecendo seus… préstimos de uma maneira ácida e bem humorada pra moça. Esse aqui.

Achei o Tumblr bacana, e trata na veia o problema. A menina deve ter achado que não foi um bom negócio pra sua marca pessoal. Quem, como ela, vive de promover uma imagem impecável sabe que virar meme por uma bobagem como essa, custa muito mais do que ela poderia pagar para um ilustrador resolver o problema que ela tinha.

Mesmo que ela tenha conseguido a tal ilustra de graça, com algum bobinho que ainda acredita no coelho da páscoa, acho que a conta ficou toda nas costas da Carol.

Ela postou um pedido de desculpas, que apagou em seguida, portanto não pude ver. Usando meus poderes mediúnicos, digo que provavelmente alegou ignorância da matéria, que não sabia que ia dar esse buxixo todo, que não estava ciente que precisava pagar pra isso, e que achava que seria uma boa oportunidade para jovens talentos mostrarem seu trabalho.

Como sempre, é bem difícil engolir. Primeiro porque ela chamou “ilustradores”, e não desenhistas, desenheiros ou desenhadores. Ela conhece o termo, sabe que é uma profissão. Mas, e veja que aí entra aquilo que o inconsciente coletivo vê em nossa área, achou que um ilustrador é alguém mais interessado em ser “famoso” do que receber.

Usando como moeda a notoriedade que ela conseguiu lapidando e exibindo seus músculos abdominais por anos, Carol acha que é uma boa alguém perder seu tempo e talentos (que dificilmente são aumentados a poder de anabolizantes) fornecendo-lhe um desenho pedido sem briefing para um projeto secreto. Deu com os burros n’água. Já foi o tempo em que fomos tão desavisados.

Porém (e como diz o Jabor, há sempre um porém), nem tudo são flores.

Carol foi um cachorro morto, vamos concordar. Foi fácil chutar. Era muita coisa bizarra reunida em um pedido só.

A chave pra mudança não está em recusar o pedido de Carol Buffara.

Da mesma maneira que o panorama da proposta indecente muda quando trocamos o Robert Redford por Danny DeVitto, gostaria de saber quantos dos valentes ilustradores que recusaram tão veementemente o pedido da moça o fariam se recebessem proposta similar vinda digamos, de uma grande agência de publicidade? Numa campanha que teoricamente pode ser veiculada em grandes veículos de comunicação? Ou uma grande editora, fazendo leilão com trabalho de vários ilustradores, e ameaçando não contratá-los mais se não jogarem o jogo? Ou uma grande marca, garantindo que depois desse “presente” virão muito mais, e dessa vez muito bem pagos? Ou uma banda de rock em ascensão precisando de uma ilustra pra capa do disco, a troco da visibilidade?

Quantos de nós estão maduros o suficiente para recusar essas propostas? Porque eu digo, elas são mais indecentes, são mais nefastas, e no fim, alimentam a cabecinha oca das Carois que existem por aí.

 

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