Grandes inimigos dos designers: Capítulo 1 – O Sobrinho

Quando iniciei a discussão sobre os rumos da profissão aqui no blog, com o post “Escolhi uma Profissão de Merda. E agora?“, jamais imaginei que ele me levaria a tantos insights. Depois de mais de um ano, o post continua sendo muito acessado, e parece que atua de alguma maneira parecida com ondas de audiência. Quando eu acho que ele está perdendo interesse, uma nova onda de designers passa a acessá-lo, e novos comentários chegam até a mim.

Isso dá, por um lado, alegria, por ver que de alguma forma, dei voz a pessoas que estavam com isso entalado na garganta. E por outro, tristeza por ver a situação generalizada, complicada e caótica da profissão no Brasil (e mundo) afora.

Com o tempo, fui notando padrões de comportamento nos comentários. As reclamações são muito similares, revolvendo sempre em torno de poucos temas. Como o blog sempre quis ser um espaço reflexivo, mas acima de tudo, propositivo, decidi dar meu pitaco nesses temas, um a um.

Lembrando que, como sempre, é minha opinião que está aqui. Sinta-se totalmente livre para discordar de mim.

De acordo com o que chega a mim, os profissionais culpam a atual situação do mercado aos seguintes fatores (sem ordem específica): Os Sobrinhos, O Mercado, O Cliente, O Patrão, A Falta de Regulamentação. Eu vou adicionar um outro por minha conta,  que pouquíssimos tocaram: A Formação.

Vamos começar por aquele que é o campeão absoluto de reclamações:

O Sobrinho:

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Nome científico: Micreirus Ordinalis

Poderes: Seus dons telepáticos fazem com que todo dono de empresa pense que ele é filho de sua irmã necessitada, e faz com que ele passe para o facínora todos os trabalhos de design de sua empresa. O Sobrinho, então rouba descaradamente todos os jobs do nosso heroi, o Designer, cobrando valores que vão de R$ 30,00 até um suco e um dog.

Origem: O jovem Austregézilo de Printmaster andava de mau com a vida, sem um tostão no bolso. Foi então que, numa visita a uma banca de jornal, sofreu um ferimento no braço ao ser cortado por um CD Pirata Radioativo do Corel (atenção xiitas, o Corel é só pra ficar engraçado, eu sei que é um bom software e usei boa parte da minha vida. Mas convenhamos, ele é o preferido dos sobrinhos), que lhe conferiu poderes mágicos e inacreditáveis.

De repente ele podia controlar todas as cores do arco-iris em seu computador. Podia produzir degradês de 1o24 cores. Todas as fontes do DaFont se ajoelhavam perante sua magnificência, e ele as usava sem clemência. Todas no mesmo layout. Se tornou o Senhor de todos os Cliparts, o Soberano da Extrusão em títulos. O Shogun do Harlem do Lens Flare.

Seus poderes telepáticos convenciam todos os donos de açougue, baladas e cabeleireiros a aceitarem seus pedidos de trabalho. Austregézilo virou uma figura lendária do submundo do design, e hoje vive em sua Micro-Caverna, comandando a todos diante de seu Micro-Computador que ele está pagando em 24x nas Casas Bahia, e ainda ganhou um DVD Player inteiramente grátis, onde exibe as edições que faz de festas de casamento que filma com sua câmera 2 megapixels.

A verdade sobre O Sobrinho:

O Sobrinho é a vítima preferencial nas frustrações de um designer. É sempre pra ele que o Designer perde um job. Na verdade, o Sobrinho é a primeira e mais triste vítima da sensação que as pessoas têm de que o design é uma profissão fácil, bacana, que qualquer um consegue, e que dá pra fazer um trocado usando o micro da família, sem precisar sair de casa. Uma espécie de vendedor da Jequiti, que nem por por o pé na rua põe.

Vivemos num país complicado. O povo fará qualquer coisa para descolar algum. E o quanto mais fácil essa coisa se parecer, maior a chance. Na última década e meia tivemos uma inundação de tecnologia na vida da classe C e D. Era de se esperar que aquele computador que o moleque usa para ficar no Face o dia inteiro fosse demandado para algo mais, mais cedo ou mais tarde. É difícil que o moleque decida fazer cálculo diferencial em seu computador (apesar dele precisar de menos processamento para tanto), ou que ele tente produzir uma grande obra literária. Ele precisa de algo simples, fácil, e de preferência, que possa colocar na galeria do Instagram.

Adivinha o que vem a mente?

Como combater a ameaça?

Por incrível que pareça, não é a coisa mais dificil do mundo. Basta ter em mente que, em 98% das vezes, o trabalho que esse cara pega não é aquele que você, designer, quer. Nos outros 2%, o cliente ou é muito burro, ou facilmente vai chegar a conclusão de que não valeu a pena para seus proposittos (merchã), e vai voltar sua atenção novamente para um profissional. Nessa hora, o designer precisa estar preparado para oferecer uma solução e um atendimento muito diferentes, que justifiquem o investimento que o empresário agora está disposto a fazer.

Na verdade, os sobrinhos tem seu papel no mercado. Ok, eles inundam as cidades e sites com panfletinhos multicoloridos e sites com montagens abixornantes, mas por outro lado eles fazem um serviço que eu não quero pegar. Tipo limpador de esgoto. Eu não quero para mim, mas graças a Deus alguém faz.

Se um job desses viesse para as minhas mãos, eu teria que recusar, ou cobraria algo que esse tipo de empresário não pode pagar. Então é melhor que alguém faça.

O que existe, em muitos casos, são empresas que se contentam com o trabalho do Sobrinho. Geralmente o enganado na história é ele. Que vai passar horas fazendo merda e ganhando pouco, enquanto se acha o máximo, apenas para descobrir, tarde demais, que já está velho, sem formação, que não tem lugar no mercado, e pior de tudo, o micro-computador está precisando de mais memória.

Com o passar dos anos, eu aprendi que perder tempo com situações insolúveis é perder dinheiro também. Eu não me comparo, não brigo, não entro em concorrência com sobrinho. Não é meu foco. Nem o trampo, nem a empresa que pensa assim. Se alguém me pede algo bem baratinho, dependendo do quanto gosto da pessoa, prefiro DAR o serviço do que cobrar. Ao fornecer de graça meu trabalho, deixando bem claro o quanto ele vale, eu tenho alguém que me deve um favor (Don Corleone sabe o quanto isso é importante). Mas se eu cobro baratinho, esse cliente ainda se acha no direito de pedir que eu coloque mais cor, e que aumente A logo.

Conselho de Designer pra Designer

Se você anda esbarrando demais com sobrinhos em seu caminho, é hora de mudar a rota. Ou você está na estrada errado, ou não percebeu que se feriu em algum CD radioativo por aí.

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Menos glamour, por favor

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Tenho um conhecido que aqui vamos chamar de Antonio.

Antonio é proprietário de uma empresa. Ele faz lavagens especiais em roupas. Sabe aquele jeans que já vem com cara de meio surrado? Pois é, a empresa dele lava. Faz outros tipos de lavagem que eu não saberia nem explicar para vocês. O Antonio não vai ser visto todo molhado na frente de um tanque. Todo processo é industrial, ele tem funcionários e domina a técnica. As vendas e prospecções de sua empresa dependem dele. Ele visita clientes e acompanha de perto os investimentos e gastos. Nível de glamour do trabalho dele: zero.

Outro amigo e cliente, que chamarei aqui de José, tem uma pequena indústria. Ele produz não-tecido. Aqueles rolos de um material que parece algo entre papel e pano, sabe? José é um dos principais produtores do país. Traz máquinas enormes, especializadas nesse segmento, e solta bobinas quilométricas de várias cores, texturas e densidades. Você se surpreenderia ao descobrir o alcance do produto. A fábrica de José é limpíssima, eu vi, mas parece (adivinhe) uma fábrica. José lida muitos mais com a área comercial e de contas da empresa do que com os operários, mas algumas vezes por semana desce à fabrica para ver de perto a produção. Nível de glamour de trabalho do José: zero.

Agora vamos falar da nossa área. Vamos falar do designer ou ilustrador que você conhece. E, para ninguém me acusar de usar um loser na comparação (e olha que não usei nenhum mega-industrial como exemplo) vamos pegar um designer que esteja numa boa colocação na nossa cadeia alimentar. Vamos chamá-lo de Heitor. Ele é fictício, mas duvido que você não conheça algum Heitor por aí.

Heitor trabalha numa agência. Não é uma agência enorme, mas é bem colocada no mercado. Heitor e sua equipe atendem à marcas bem estabelecidas no mercado. Faz design de identidades corporativas bacanas, com manuais de utilização que são um show à parte. Faz embalagens, anúncios, catálogos. Quando a campanha exige, Heitor visita estúdios, e uma vez assistiu uma sessão de fotos com a Gisele Bundchen. A agência onde Heitor trabalha é descolada. Tem ping pong e video game nas áreas comuns. O ambiente é bem decorado, e a mesa dele fica a quase dois metros da mesa do seu colega. Quando fecha uma conta grande, ou no fim do ano, a agência faz eventos concorridos. As vezes, chamam bandas do momento para shows fechados. Um dos diretores da agência ganhou um Leão ano passado.

Quando precisa ficar até tarde, eles pedem uma pizza muito foda, e no começo do ano rolou até uma cerveja na madruga. Heitor tem vários amigos da área. Da sua e de outras agências. Frequentam as mesmas baladas. Comem nos mesmos restaurantes. Nível de glamour do trabalho de Heitor: 8,5!! Uau!

Tenho quase certeza que nenhum designer quer ter a vida dos dois primeiros personagens. Claro, somos pessoas criativas, inquietas, temos outras coisas na cabeça. Faz sentido. Faz?

Essa desconexão entre o “nosso mundo” e o “mundo por aí”, na minha opinião, pode estar enfraquecendo nossa profissão. Me explico.

Se Antonio e José se encontrarem num almoço qualquer por aí, vão se entender perfeitamente, em 10 minutos no máximo. Se Heitor estiver na mesa, vai ser dificil manter o interesse de parte a parte. Para profetizar, creio que os dois acharão Heitor excêntrico demais. E Heitor pode achá-los caretas e boçais, e descobrir rapidamente uma rede social no celular, ou um punhado de canudinhos plásticos com um colorido lindo para tirar uma foto FODA pra colocar no seu instagram.

Se o glamour da vida “mundana” de Heitor te interessa (e admita, interessa), talvez o resto da vida dele  não produza a mesma mágica.

Enquanto Antonio e José são donos de casas em condomínio, dirigem SUVs e viajam com a família para o exterior uma vez por ano, Heitor paga aluguel num imóvel de dois dormitórios (num prédio antigo de um arquiteto lendário, com uma biblioteca de livros de arte e design invejável) numa rua legal do centro da cidade. Nem precisa de carro, tudo é perto. Quando não tem jeito, pede uma carona a algum amigo. Fez um mochilão para a Europa, uma vez. Heitor não tem filhos, mas se optar por tê-los vai ter que reinventar sua vida toda.

Heitor sente que poderia ganhar mais. Que trabalha mais do que ganha. E no almoço com os pais no fim de semana, às vezes acha que dá mais duro do que seu irmão engenheiro, que tem um salário duas vezes maior do que o seu.

Não estou aqui querendo ser sarcástico com os Heitores por aí (talvez só um pouco). Quero só tocar no Heitor em cada um de nós.

Nos consideramos seres diferentes, especiais. Na verdade, somos tão diferentes quanto um economista é diferente de um médico. Mas eles sabem levar suas carreiras, nós não. Estamos nos concentrando nesses detalhes “glamourosos” do nosso trabalho quanto talvez devêssemos prestar mais atenção no todo maior. Talvez, numa análise dessas, cheguemos a conclusão de que esses mimos são colocados ali como aquela suculenta maçã pendendo na frente da cara do cavalo para fazê-lo andar. E sem reclamar.

Não quero ter a vida do Antonio ou do José, assim como eles não querem a minha. Mas se quero ter alguns resultados parecidos com os deles, vou ter que aprender a entendê-los. Seja porque são modelos em potencial, seja porque podem ser clientes em potencial. Para atendê-los, eu preciso viver no mesmo mundo que eles.

Se, por outro lado, eu me transformo nesse ser mitológico que quase parece uma esfinge, não posso cobrar dos Josés e Antonios que me entendam, que me consultem, que me decifrem. Eles com certeza terão medo de serem devorados.

Não me julguem como um mercantilista. Não estou dizendo que é preferível fazer um serviço qualquer e ser bem pago. O preferível é fazer um serviço exemplar e ser bem pago. Mas que esse serviço tenha mais valor para seu cliente do que para outro designer. Que você seja reconhecido com um criador de soluções, que seja chamado para participar do jogo empresarial do seu cliente, e não que seja percebido como um acessório.

Eu estou numa cruzada pessoal para fazer com que o trabalho da Propósitto seja uma parte normal da vida das empresas e clientes que atendo. Chega de “ai que lindo” uma vez por ano. Prefiro um simples obrigado, e a certeza de que em alguma parte do processo, meu trabalho fez alguma diferença real no ciclo de vida das empresas e produtos que toquei via design. E que amanhã estarei novamente no processo, da mesma forma que um advogado ou consultor.

Se eu conseguir isso, poderei ter o trabalho do Heitor, e os resultados do José ou do Antonio.

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Shape – Um filme sobre Design

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As vezes esbarro com verdadeiras pérolas nas pesquisas diárias, e quando isso acontece, não dá para ficar apático.

Foi o que aconteceu hoje, quando encontrei este realmente adorável curta metragem de animação, chamado SHAPE.

O projeto, idealizado pela Pivot Dublin, além de ser um deleite para os olhos, é uma das formas mais didáticas, divertidas e universais que eu já vi de explicar para crianças (ou mesmo adultos e clientes), o que é design, porque ele existe, no que ele muda (e vem mudando cada vez mais) nossa vida.

O site do projeto por si só já é um achado, de onde se pode pinçar frases como:

“Design é uma coisa simples, que todos podemos usar. Pensamento criativo para propósitos práticos. Poder imaginar uma pedra como uma lança, uma caverna como casa ou uma rocha como parte de um muro. É uma ponte entre o que algo é, e o que pode ser. Entre as coisas que nós fazemos  e como as usamos. Não é toda a história do mundo que fazemos ao nosso redor, mas é uma importante parte. E sempre esteve por aí, nos ajudando, e fazendo as coisas funcionarem melhor”

Eu diria para todo designer, que luta diariamente para mostrar para as pessoas a relevância da nossa profissão: mostre esse filminho. Mostra para seus parentes, seus filhos, seus clientes. É uma forma bem humorada, não agressiva e bem didática de ensinar.

Não deixe de visitar o site do projeto, que é igualmente bacana: http://www.makeshapechange.com/.

 

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Respondendo dúvidas de um estudante de Design

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Recebi um email de um jovem me fazendo duas perguntas sobre a carreira, depois de ler o artigo “Escolhi uma Profissão de Merda, e Agora“. Foram duas questões apenas, mas achei que ele foi claro e direto, e que as dúvidas dele podem estar na cabeça de vários outros jovens.
Por isso resolvi reproduzir o que escrevi para ele aqui. Claro que são respostas completamente pessoais, que podem no máximo servir como reflexão para ele tomar as próprias decisões.
1 – Devo continuar ou vale mais a pena tentar alguma área que paga melhor?
Se você tomar por base estritamente a questão monetária, você vai com certeza encontrar profissões que pagam mais. Mas se você for como eu, não sabe fazer mais nada, não tem muita escolha.
Se este é o seu caso, ou seja, se seu talento natural e sua vontade é de ser designer, mesmo que dê trabalho, existe lugar para você no mercado. É uma luta diária? Sim. Mas fazendo certo, há resultado. 
 
Não é fácil encontrar designer com nível salarial médio de engenheiro, ou médico. Mas dentro dos círculos certos, existem designers que estão felizes com suas profissões e que se sustentam de modo satisfatório com o que fazem. Não é fácil. Mas não creio que alguma profissão seja. 
 
Resumindo: se você ama design, e se você tem talento, fique. Se por outro lado, sua escolha passa por outros vetores, e você tem outras aptidões que justifiquem outra carreira, sinto dizer que este pode ser um caminho mais simples e lucrativo, sim.
 
 
2 – A vida do designer gráfico (ou produto) está difícil? 
 
Sim, está. A profissão vem passando por modificações muito profundas que estão mudando o panorama da carreira. Algumas delas são bem inevitáveis, como a regulamentação da profissão, que até hoje não saiu do papel. 
 
Outras, como o perfil do profissional que o mercado quer, estão mais nebulosas. Designer deve saber desenhar? Deve saber programar? Plataforma tecnológica ideal, posição e hierarquia dentro das empresas. Concorrência com outros profissionais. Concorrência com amadores. Trabalhos especulativos. Tudo isso é bem vago, está em discussão, e tem quem defenda qualquer lado dessa conversa.
 
Do meu lado, o que vejo de mais cansativo na vida do designer é a constante luta para provar que nossa profissão é relevante, necessária e que dá resultados práticos. Precisa ter uma boa dose de talento de sacerdote para evangelizar as almas dos que precisam de nós. 
 
Aqueles que realmente sabem da importância do nosso trabalho (caso dos profissionais de marketing e/ou publicidade) às vezes preferem nos explorar sem dó nem piedade, e se possível ficar com os louros do resultado de nosso suor para eles. 
 
Mas em comparação eu não saberia dizer. Porque esses são os desafios da nossa profissão. Quais são os desafios dos médicos, advogados ou engenheiros? Só saberia sendo um deles. 
 
O que eu tento fazer é focar nos desafios que eu tenho, porque Design é um assunto novo há uns 30 anos no Brasil. E tem muito chão para andarmos. Precisamos de gente com muito fôlego, porque a caminhada ainda é longa.

 

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Investindo em sua marca num tempo de crise

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Copa do Mundo rolando, profusão de feriados, uma economia capenga, inflação voando baixo sobre nossas cabeças, e para deixar tudo mais complicado, ainda teremos uma grande eleição pela frente. Some-se a isso a forte perspectiva de que, independente de quem vença as eleições, tudo caminha para um 2015 difícil.

Um só desses fatores já poderia influenciar no equilíbrio de qualquer empresa. Todos juntos é um sinal forte para quase todo empresário entrar em alerta laranja. Mesmo que as coisas estejam bem, é bem natural e compreensível que o empreendedor tire o pé do acelerador, nem que seja para conseguir ver um panorama mais detalhado da estrada em que está. O problema é que muitos fazendo isso ao mesmo tempo, e pronto: criamos mais um engarrafamento.

O brasileiro tem medo de crise. O empresário, que não costuma contar com a ajuda governamental, mas sabe bem que o governo pode atrapalhar bastante quando quer, é gato escaldado, e prefere não ser pêgo de calças curtas. Mas toda essa prudência pode vir com um certo custo. O período entre esses grandes eventos é muito longo. Deixar de investir em sua marca por 6 meses, deixando em banho Maria pode ser muito mais perigoso do que benéfico.

É perfeitamente entendível que se prefira cortar grandes produções, grandes eventos, segurar os recursos e garantir que a organização esteja razoavelmente em forma para enfrentar qualquer intempérie. Mas e se os esforços acabarem, por omissão e medo, enfraquecendo a imagem da sua empresa? Desbotando a marca que, durante o tempo de bonança, ficou mais forte e reconhecível, seja pelo investimento que foi feito, seja pela capacidade de vendas aumentada pela economia forte.

A súbita paralisação desse investimento pode ser pior do que nunca tê-lo feito.

O ideal é reorganizar e reescalonar suas metas para tempos de crise. Sai a estratégia de crescimento, e dá lugar a uma nova estratégia, de manter e assegurar seu lugar no mercado. Ou, dependendo do fôlego que sua empresa tem em estoque, uma estratégia de avaliar quais concorrentes estão sentindo mais o baque para ampliar mercado. Aproveitar o período para treinar colaboradores, inclusive a como atuar durante a crise. Injetar ânimo na equipe reforçando o orgulho deles de serem parte do time. São diversas opções.

Duas coisas são certas: não investindo nada, as chances de nada acontecer são grandes. E com isso, a possibilidade do eu barquinho virar. E outra, muito importante: contrate um profissional para te ajudar a pensar nisso tudo.

Nesses momentos é muito comum o empresário achar que, já que ele participou dos processos decisórios sobre design e marca junto com o designer, dá para assumir essa função, mesmo que temporarariamente, para economizar. Erro crasso. Dessa forma, é preferivel nem fazer nada, a fazer amadorística e porcamente.

Economias podem ser feitas trocando ações mais caras por outras mais contidas. Mas essa economia não precisa ficar explícita em cada peça mal feita que for vista pelo público. Pelo contrário, em períodos incertos, as pessoas preferem se relacionar com marcas sólidas, positivas, que não transparecem o medo do futuro. Não deixe que sua empresa se pareça com uma boia furada que é jogada no meio mar revolto para esse cliente. Ele, como todos os outros, está no meio da mesma tempestade, quer se apoiar em algo seguro e firme.

Sim, prenúncio de crises metem medo em todos. Mas se é inevitável entrar numa briga, melhor fazer alguma musculação antes.

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5 motivos para NÃO empreender em Design Gráfico

No último post elencamos 5 fortes motivos para você, que está cheio de incertezas e vontades dentro da estrutura de uma empresa, chutar o balde e ir procurar qual é, afinal de contas, a sua turma.

Mas nada é perfeito. Antes de pedir para seu patrão conferir a próxima esquina em busca da sua pessoa, é bom que você saiba: tudo tem dois lados. E se existem 5 bons motivos para você ir embora, também existem (pelo menos) 5 para que você não saia.

Recomendo que se leia o primeiro artigo antes desse. Ele está aqui.

1 – Você terá liberdade

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Pois é. Você pode tudo. É dono do estúdio, do seu nariz, é maior e vacinado. A última palavra, em cada trabalho, é sua. Mas será que você está preparado para tanta liberdade? Tem certeza que seu discernimento é bom o suficiente para bater o martelo e mandar para o cliente, sem ninguém dar uma olhada, um pitaco, antes?

A liberdade total pode ser bem solitária. O ambiente do estúdio pode ajudar muito. Quando se está trabalhando por conta própria, muitos de seus amigos se tornam, mesmo que leais, concorrentes. Não é nem justo com eles pedir opiniões, pois uma opinião técnica tem preço, certo? Tenha certeza que seu trabalho está maduro.

Fora que, aquilo que parece uma benção, pode se tornar uma armadilha muito facilmente. Poder trabalhar a hora que quiser pode ser lindo. Mas seu cliente trabalha das 8 as 6 da tarde. Você não é muito útil pra ele as 3 da manhã. Ele quer falar com você, quer resposta no email.

Se no escritório você tinha um cafezinho, por sua conta você tem a geladeira, e a rua toda para satisfazer qualquer desejo. Uma saidinha para buscar inspiração pode emendar num passeiozinho no parque, um cineminha e uma balada. E o serviço lá, pegando poeira na sua mesa.

Disciplina é o melhor remédio. Se não tiver, nem tente.

2 – Pouca gente empreende no Brasil

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E tem motivo.

Empreender no Brasil é bem complicado. Vai ser necessário entender um pouco da burocracia, abrir legalmente uma empresa, enquadrá-la na modalidade certa, pagar mensalmente um contador. Emitir notas, saber quando e se deve contrair um empréstimo. E viver ainda assim com a incerteza de que está tudo correto.

Desligar o computador, colocar a mochila nas costas e ir para casa, sem perder um fio de cabelo pensando em contas, boletos, organização é uma delícia. Quando você é dono de empresa, é uma atribuição contínua, 24 por dia.

Você vai precisar pensar na empresa o dia inteiro. Em festas, encontros, reuniões de condomínio e caminhadas no parque. Todo mundo que você conhece é um ponto em sua rede que merece atenção e é um potencial repetidor do quanto você é bom e confiável ou não passa de um relapso bebum. Sua imagem estará mais relacionada com a de sua empresa do que com a de seus parentes.

Se você resolver ou precisar ter funcionários então, se prepare. É tudo multiplicado por 20. Pouca gente empreende no Brasil porque empreender é dificil, requer dedicação e talento. Analise se é o seu caso.

3  - Você terá contato direto com seu cliente

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Se você adora design, adora criação, adora cores, teu lugar é num estúdio. Se quer ser dono de uma empresa de Design você tem que gostar é de cliente. E eles nem sempre são fáceis.

E nem deveriam ser. Diferentemente de um profissional de atendimento, eles não falam sua língua. Não tem traquejo em design, não sabem o que é serifa. Seus cartões de visita estão em Comic Sans e eles vão ficar chateados quando você disser que mudar isso é condição sine qua nom para continuar o serviço. Eles pedem opinião sobre seus layouts para o filho do jardineiro ou para a companheira de academia. Eles mandam logotipos em GIF animado inserido num Excel dentro de um Power Point 1993.

Eles esperam que você se envolva com os negócios deles. Que você os conheça pelo nome. Você pode ter mais 200 clientes. Mas para cada um deles, você é o único designer, eles estão investindo no seu trabalho.

E você vai ter que lidar com eles. Vai ter que educá-los. Vai ter que amá-los. Eles são seu ganha-pão.

4 – Tudo depende somente de você

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Talvez o mais auto-explicativo dos itens. Pode-se ler de outra forma:

Nada fica pronto sem você. Simples assim. Todas as decisões, todas as iniciativas.

Se quiser gastar, gaste. Se quiser fazer um retirada maior, faça. Se quiser tirar férias, tire. Os riscos são seus. Esse controle todo pode deixar muitos preocupados, e interferir negativamente na hora de criar. Um sócio pode ajudar. Ou terminar de ferrar com tudo. Mas de novo, essa decisão é sua. É tudo culpa sua, não esqueça.

5 – Você não tem mais um teto

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Não ter teto é o lado bom de dizer: você não tem mais chão também. Se cair, é sem rede.

Uma condição inerente ao empreendedor é a ambição. Não confunda ambição com falta de escrúpulo. Mas sim, é necessário ter vontade de crescer para ser um bom empresário. Em alguns momentos, vai ser necessário arriscar mesmo. Tomar decisões com menos informação do que você gostaria.

Vai ser preciso sangue frio, e quem não tem essa característica pode ficar travado, sem conseguir decidir coisa alguma. Se por outro lado, a pessoa for o lado oposto da moeda, os resultados podem ser desastrosos. Quem arrisca em tudo, não sabe ser precavido, minimizar os riscos ao máximo, pode terminar a empreitada com a cara no chão, morrendo de saudades de um patrão.

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5 motivos para empreender em Design Gráfico

Todo mundo que já trabalhou em um estúdio, agência ou em uma área de design de empresas sabe que a vida do designer gráfico empregado não é bolinho.

A coisa mais comum do mundo é observarmos meio que de canto a ascenção de pessoas de outras áreas, enquanto ficamos anos a fio no mesmo lugar, especialmente porque não tem nem espaço para cima no organograma da empresa. Também é comum sermos subordinados de áreas que, na prática, não tem a ver com nosso expertise. Trabalhar em ambientes que não são próprios. Ter que se adequar a regras e restrições que as vezes só ajudam a encolher  nossa criatividade.

Em estúdios e agências, onde os patrões geralmente são da área, ou próximos dela, somos vítimas frequentes de jobs de última hora que teimam em ter deadlines perfeitamente posteriores ao feriado que você já tinha marcado com a galera de ir para Mongaguá. E geralmente são jobs importantíssimos de contas que a agência não pode perder. O risco é sempre você perder. No caso, o emprego.

Somos animais diferentes. Nem sempre somos entendidos. Temos ideias claras do que poderia ser feito. Por isso acho normal que um grande contingente de designers resolva, mais cedo ou mais tarde, tomar as rédeas da própria carreira e empreender ou frilar. Alguns ficarão nessa para sempre. Outros, voltarão à rotina de ingestão de pizzas frias sem banco de horas como um soldado volta da guerra pro colo da mamãe, satisfeito.

Hoje, no blog, quero listar 5 bons motivos para empreender em Design Gráfico (mas acho que vale para outras áreas também).

1 – Você terá liberdade

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Use as influências que você quiser, pesquise nos livros de sua preferência. O Diretor de arte não vai dar o toque final. Não vai se apropriar da sua ideia. Você pode produzir nas horas que é mais produtivo. Pode sugerir o que quiser, acessar qualquer site durante seu expediente. Paradas para cafezinhos, quitutes e o que mais você tiver na sua geladeira, quando você quiser.O espaço é seu.

E isso pode ter sim, muita influência na sua criação. Lidar com reuniões sem fim e sem propósito, jogar o jogo da política dentro da empresa. Dividir o ambiente com gostos e pessoas muito distintas pode te deixar irritado, preso, e por consequência, com dificuldade de criar. A própria sensação de relaxamento, falta de stress podem ter uma influência muito positiva em sua produção. Em sua empresa, suas regras.

Tudo aquilo que ninguém tinha dado uma chance para você mostrar vai poder ver a luz do dia.

2 – Pouca gente empreende no Brasil

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Por uma questão cultural e de panorama econômico, somos um povo pouco empreendedor. Isso significa menos concorrência.  É claro que existem muitos designers no mercado tentando a sorte. Mas existem nichos pouco explorados. E clientes que precisam de atendimento.

É a sua chance de mostrar que tem diferenciais e conquistar seu lugar no mercado. Se sua rede de relacionamentos é diversificada e você conhece seus pontos fortes e fracos, pode estabelecer laços importantes e a sua empresa pode crescer rápido

3  - Você terá contato direto com seu cliente

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Sabe aquele briefing que saiu da mesa do diretor da empresa, passou pelo marketing, que contratou a agência onde você trabalha, falou com a secretária, com o dono, que passou pro tráfego e caiu no seu colo? E que, depois que você faz a arte precisa da aprovação do cara que iniciou o processo todo. Justamente ele que pediu que o logo fosse “bacana”, mas que depois de todo o telefone sem fio, você acabou entregando “banana”. E claro, vai ter que refazer, pra ontem, e durante o feriado.

Então, por um bom tempo, a não ser que você tenha dinheiro para começar contratando meia dúzia de profissionais, esse pesadelo acabou. Você vai falar diretamente com seu cliente. Com o tempo, aqueles que se tornarem mais habituais poderão virar amigos, e você poderá atingir uma sintonia de pensamento e um grau de envolvimento com a marca que poderá lhe poupar muito retrabalho.

Se fizer seu trabalho direitinho, deverá se tornar gestor da marca, e realmente influenciar e ser ouvido na administração dela. Depois que você se torna dono de seu próprio estúdio, pode aumentar o leque de detalhes e arriscar mais. É bastante gratificante.

4 – Tudo depende somente de você

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Eu sei como é frustrante trabalhar num micro velho, sabendo que se poderia fazer o investimento num novo, que vai te proporcionar mais agilidade e segurança. Ou como é desgastante usar versões antigas dos softwares, já que os novos tem tantos recursos que ajudariam.

Como empreendedor, é você que decide quando proceder com esses investimentos. E uma série de outros. Desde que banco sua empresa será cliente, se vale a pena pegar uma linha de crédito para ajudar, de quanto vai ser seu fluxo de caixa.

No fim das contas, tudo que você fizer de certo tem um único autor: você. Para mim isso foi muito recompensador. Sempre tive a impressão que eu passava a vida ganhando respeito, contas e respeito para meu empregador. Depois que me tornei empresário, este é um patrimônio meu, do qual não abro mão. Se as horas perdidas e o suor são minhas, creio que os tapinhas nas costas, louros e lucros também devam ser.

5 – Você não tem mais um teto

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Um dos fatores determinantes na minha decisão de abrir uma empresa era a incômoda sensação, que é bem mais forte na nossa área, de que o topo da sua carreira dentro da organização onde você trabalha está ali. Ali mesmo, na sua frente, na figura do seu Diretor de Arte. Quanto ele ganha? Quanto ele trabalha? Qual o nível de decisão dele na empresa? Proporcionalmente, é o máximo que você vai conseguir quando (e se) estiver ocupando o lugar dele. Quase sempre o organograma de uma área de design ou criação tem dois ou três degraus (contando o estagiário). Se você trocar de empresa, vai trocar quase que somente a cara do diretor. Mas a realidade é bem parecida. Designer junior, pleno e Sênior são muito mais ligados a tempo de janela do que alçada de decisão dentro de uma empresa.

Outras carreiras nem sempre são assim. A área administrativa tem escadas intermináveis para se galgar. E várias empresas têm diretores com muito poder nas mãos, decisão de fechar e abrir, benefícios e mordomias crescentes, respeito e até temor por parte dos subordinados (não que eu goste disso, é apenas o que é).

Nunca fui fã de limites. Não é tanto uma questão de querer. É de poder querer. Sendo dono do seu negócio, você decide até onde está disposto a ir. Que direitos quer sacrificar. Que apostas quer bancar. E de quais quer fugir. Se tudo der certo, você pode ir longe.

Até agora falamos sobre os motivos para se empreender. A decisão parece fácil.

Mas ainda não vá procurando a carteira de trabalho para pedir demissão. Pois este artigo tem uma continuação, na semana que vem, que se chamará “5 Motivos para não empreender em Design Gráfico”. Até lá.

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Trabalhando de graça

Hoje, uma amiga designer compartilhou comigo essa matéria, que saiu no Pequenas Empresas, Grandes Negócios. Ela mostra um Webdesigner que resolveu parar de cobrar pelo seu trabalho, e diz que não se arrepende.

Na verdade, ele parou de dar preço. Ele “aceita” presentes e a quantidade de dinheiro que seus clientes dizem que seu trabalho vale. É no mínimo arriscado, mas segundo ele, é um modelo de negócios que está funcionando.

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E aí, designers? Será que isso funcionaria por aqui? Será que isso funciona por lá?

Antes de mais nada eu me perguntaria quais são as aspirações do sujeito. Fazer caridade ou viver bem. E o que significa viver bem para ele. Não se esqueçam, os Estados Unidos são a pátria do movimento Hippie.

Talvez ele esteja se dando bem, trabalhando a troco de presentes… Mas é possível planejar a vida dessa forma? Talvez, se o governo paga uma boa escola pro seu filho, e você ainda não pensou em como vai mandá-lo pra faculdade. Talvez, se você tem transporte público de qualidade e não tem medo de precisar voltar pra casa de bote. Talvez, se você ganhou uma casa própria ou não tem intenção nenhuma de ter. Muito “talvezes”.

No fundo é uma questão de educação. Adrian parece ter confiança em seus clientes, e isso é muito bom. Isso mostra um nível de refinamento dos clientes invejável mesmo. Aqui, fico pensando em um monte de gente que nunca pensou em ter um site, e que faria fila para me dar a oportunidade de presenteá-los a troco de um porta-retratos e um mouse pad. Se estamos lutando para incutir o valor de nosso trabalho dentro das mentes de nossos clientes (e isso já está sendo dificil o suficiente), porque dá-lo de graça ajudaria nessa tarefa?

Sabe o que provavelmente aconteceria? Adrian olharia para a fila de gente querendo sua caridade, e começaria a triar as pessoas de acordo com quem tem mais chance de lhe dar um presente, digamos, mais substancioso, ou que ele esteja precisando no momento. A ordem das prioridades aos poucos se alinharia com as  necessidades do designer. E pouco a pouco o sistema iria pro saco. Porque a própria concepção do que é um presente está em não olhar os dentes do cavalo que se acabou de ganhar.

Desculpem, mas por mais bem intencionado que o rapaz seja, a iniciativa dele não tem chance de se espalhar, a não ser que contamine a sociedade toda. E o médico, o advogado, o engenheiro e o açougueiro passem a aceitar presentes também. Mas aí, teríamos dúvidas como “quantos gramas de presunto valem um site?” ou “porque você obturou meu dente por um saco de cimento se só cobrou uma massagem holística dela?”. São questões válidas, sem resposta, e, em última análise, o real motivo pelo qual a sociedade criou este ser diabólico chamado dinheiro.

Dinheiro é um problema. Mas ainda não achamos uma solução melhor.

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A grande batalha dos Super Heróis

Durante toda minha infância, adolescência e boa parte de minha juventude, quadrinhos eram coisa de gente estranha. Gente que aparecia em filmes como “A Vingança dos Nerds”. Apesar de serem os mocinhos do filme, ninguém queria ser aquilo.

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De repente, às vesperas do ano 2000 chegar, todo mundo descobriu que amava Super Heróis. E tudo começou com dois filmes: X-Men, de Bryan Singer em 2000, e dois anos mais tarde, Homem-Aranha, de Sam Raimi. Blade também teve um papel nessa história, mas pouca gente sabia que era um personagem de quadrinhos, então vou deixá-lo de fora da análise. Os filmes tiveram várias sequências, faturaram alguns caminhões de dinheiro, e despertaram o interesse dos produtores para um filão que vinha sendo ignorado.

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É preciso contextualizar esse mercado. A grande maioria dos heróis de primeiro escalão, esses que todo mundo conhece, está concentrada nas mãos de duas produtoras americanas: A Marvel e a DC Comics. Até então, a DC havia feito escolhas melhores que seu concorrente. Tinha no portfólio os filmes do Superman (os bons e os ruins), os do Batman (que fizeram muito sucesso na época). Por piores que os filmes da DC possam parecer, analisando pela ótica de hoje, nenhum deles era tão ruim quanto as bombas que a Marvel fazia na época, como o Justiceiro com o Dolph Lundgrem e um Capitão América que dava vergonha de olhar pra capa do DVD.

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Depois dessa renascença dos heróis no começo da década de 2000, tivemos algumas boas produções, e a verdade é que a DC acertou o tom com seu Batman Begins, e errou bastante em Superman Returns, mas a mudança de verdade veio com Homem de Ferro em, 2008. E veio na forma de uma cena pós-creditos, onde Samuel L. Jackson, no papel de Nick Fury, alertava Tony Stark sobre o fato de que ele não era o único super-cara daquele universo. Parece que não, mas aquilo mudou TUDO.

Passados mais de 5 anos, o panorama mudou muito. A Marvel tem uma posição estabelecida e consolidada, mas parece não tirar o pé do acelerador, sem dar tempo pra ninguém respirar. A DC está se movendo mais lentamente. Neste artigo, queria analisar as estratégias de marca das duas empresas, e ver os acertos e erros de cada uma.

Reconhecimento

A Marvel descobriu o que todo fã de quadrinho já sabia. Se você vai adaptar um personagem que tem décadas de reconhecimento e um cabedal de fãs pendurados nele, porque não tentar ser fiel ao material fonte? Pouco tempo antes da onda de Heróis dominarem as telas, vimos layouts criados para filmes que quase foram produzidos. Os estudos do Superman de Tim Burton e o Homem Aranha de James Cameron podiam ser qualquer coisa, menos os heróis dos quadrinhos. Eram adaptações livres demais.

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Sam Raimi conseguiu fazer um uniforme e visuais muito similares aos dos quadrinhos, e mesmo os X-Men, que não adotaram essa virtude na forma, conseguiram fazer no conteúdo, que é bem parecido. Além disso, encontraram encarnações perfeitas do professor Xavier e Wolverine.

Quando Iron Man estreou, a armadura escolhida para o filme era uma cópia exata da que vinha sendo mostrada nas páginas, feita inclusive, pelo mesmo artista conceitual, Adi Granov, que a Propósitto entrevistou aqui.

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As duas companhias tem (ou tinham) visões distintas quanto ao manejo de suas franquias. A Marvel optou por fazer com que os quadrinhos ditassem o tom dos filmes. Já a DC entregava os personagens à visão de seus diretores, desde sempre. Isso deu certo com Superman de Richard Donner, que carrega todas as características do diretor. E também com Batman de Tim Burton (que visto sob desta maneira funciona bem). Mas é terrível nos filmes de Joel Schumacher, na Mulher Gato, do Pitof (??) e no maldito Lanterna Verde, do Martin Campbell.

Ainda que os filmes da Marvel tenham suas diferenças (basta comparar os 2 Thor), neles o personagem é mais importante que o diretor.

Consistência

Outro grande acerto da Marvel. Não deixar a peteca cair. Cada filme traz um gancho para outro. Todo ano temos pelo menos um lançamento da Marvel. Além disso, a Marvel criou o conceito de grandes arcos. Ainda que os filmes contem histórias isoladas, nada é totalmente apartado, e cada filme constrói uma peça para um climax já anunciado. No caso, os filmes dos Vingadores. Atualmente, a Marvel já está em sua segunda fase, da qual fazem parte Thor 2, Capitão América 2, Guardiões da Galáxia e Homem Formiga, culminando com Vingadores 2: Era de Ultron. É mais que um calendário, é um compromisso com seu público.

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Enquanto isso, a DC, que poderia explorar mais ainda esse conceito de unidade, apostava em filmes solo, como os ótimos (bom, menos o terceiro) filmes do Batman, sempre com um pé atrás nessa questão. Ela chegou a ter um seriado de razoável sucesso, Smallville, que inclusive introduzia diversos personagens do seu universo, mas sempre preferiu mantê-lo como uma mitologia paralela, e pra desespero dos fãs, que viam Tom Welling como uma boa opção na época para viver Superman, nunca colocou o cara num uniforme de verdade.

Carinho pelo material fonte

Verdade seja dita. A Warner, dona da DC Comics há muitos e muitos anos, estava cuidando de sua galinha dos ovos de ouro, chamada Harry Potter. Não dá para culpá-los, os filmes fizeram quantidades nababescas de grana. E foram produtos bem realizados. A DC, nesta época, era um patinho feio. Mas eis que, veja só, os livros do bruxinho eventualmente acabaram, e a Warner precisava ordenhar alguma vaca, e Chris Nolan estava mandando bem com os Batman…

Já a Marvel passou a ser uma divisão independente dentro da Disney. Suas prioridades eram seus próprios personagens. Por isso o plano consegue ser tão bem executado.

Chapéus

Para que algo dê certo, precisa ter dono. Em grandes corporações, isso tende a se perder. Em produções cinematográficas, mais ainda, pois cada diretor tem sua visão, e cada produtor quer puxar a sardinha para suas preferências. A Marvel resolveu o problema, colocando todas as franquias nas mãos de um cara só. Na primeira fase, antes da compra pela Disney, esse cara era Avi Arad, que produzia os filmes da própria Marvel, mas também opinava nas franquias que já tinham sido vendidas para produtoras externas, como a Sony (Homem Aranha) e a Fox (Quarteto Fantástico e X-men). Ainda que não tenha garantido bons filmes todo o tempo, pelo menos garantiu que os personagens não fossem esquartejados.

Kevin Feige

Kevin Feige

David Goyer

David Goyer

Atualmente esse nome é Kevin Feige. Depois do sucesso avassalador de Vingadores, Joss Whedon apita muito, mas não é dono da decisão final.

A DC está tentando fazer com que Christopher Nolan seja este cara. Mas eu não creio muito. Nolan é muito ocupado e muito autoral para dar conta, e a bola tem ficado mesmo nas mãos de David Goyer, que apesar de ser um bom escritor, tem altos e baixos na carreira. Ao lado de Nolan é ótimo. Sozinho (vejam Blade 3), nem tanto.

Futuro

Essa é uma pergunta com uma só incognita, e ela vem da DC. O futuro da Marvel está com sua linha mestra lançada, ainda que a produtora ofereça surpresas como a mini série do Demolidor pela Netflix, ou um possível filme do Dr. Estranho ou Pantera Negra, sempre trazidos a baila. Mas já sabemos que, a menos que algo saia dos trilhos, teremos um Thor 3, um Capitão 3 e um Vingadores 3.

A DC parece ter sentido o golpe, e Man of Steel atesta essa ideia. O filme já aponta com uma série de possibilidades, e o anúncio de Batman Vs Superman com participações de outros heróis, desembocando num filme da Liga da Justiça pode fazer a mágica pela DC. Mas logo quando as coisas pareciam nos eixos, já temos uma postergação de um ano em sua data de estreia. Pode significar lançar um filme muito mais bem pensado, mas pode também significar uma briga com uma Marvel mais forte ainda. Só o tempo dirá.

Claro que a DC deve ter gente mais capacitada que eu em seus quadros. Mas se as decisões fossem minhas, eis o que eu faria:

• Larguem de mimimi, e apresentem seus planos. Todo esse segredo só transparece falta de planejamento.

• Mostrem logo uma foto de Affleck vestido com o uniforme. O hype negativo está crescendo, e se demorarem muito, vão ter que apresentar o quinto milagre de Fátima pra conter.

• Trabalhem em curtas metragens, com personagens menores. Isso ajuda na espera que os fãs precisarão aguentar até 2016. Quem sabe curtas em CGI, na mesma qualidade daqueles que vemos nos cinemáticos de jogos como Batman Arkham City.

• Arrumem algum jeito de fazer esses personagens continuarem dando as caras nesse meio tempo. Sem exagero, mas com consistência.

• Usem os quadrinhos e a divisão de desenhos animados a seu favor. A DC sempre teve excelência em animação. 

Por enquanto não há como negar, nesse crossover, os Vingadores estão dando o maior pau na Liga da Justiça. Mas o tempo pode mudar muita coisa.

 

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Portfólios absurdos: Walt Kelly

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Assistindo ao documentário sobre Calvin e Haroldo, que ainda vai render um post, topei com uma das grandes referências de Bill Watterson. Confesso minha ignorância. Não conhecia Walt Kelly. Pelo menos não profundamente, porque algumas de suas criações já haviam chamado minha atenção.

Walter Crawford Kelly, Jr. nasceu dia 26 de agosto de 1913,  na Filadélfia. Trabalhou como repórter e fez charges em jornais até 1935, quando foi para A Disneu, desenhar o Pato Donald. Acabou no departamento de animação, onde ajudou a criar filmes como Pinocchio, Branca de Neve, Dumbo e o Dragão Relutante.

Saindo da Disney foi para a Dell Comics, onde desenhou HQs para crianças. Foi nesta empresa que ele criou sua obra mais importante e influente, Pogo, o Gambá. A tira contava as histórias de bichinhos que viviam num pântano, mas por trás dos desenhos fofinhos havia um forte componente político e filosófico.

Kelly fez sucesso na época de ouro das tiras de jornal, onde o caderno de quadrinhos era enorme, e as tiras ocupavam páginas inteiras, e era possível ver artes detalhadas e lindíssimas. Seu traço é realmente lindo, detalhado e preciso e dá pra perceber que alguns criadores beberam de sua influência, do já mencionado Bill Watterson a Jeff Smith, de Bone.

Veja alguns exemplos de seu trabalho abaixo (clique para ampliar, vale a pena):

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