Entrevista com Michael Golan, designer de Israel

Continuando nossa missão de trazer a realidade do designer em diferentes países, o blog da Propósitto conversou com Michael Golan, um designer independente de Israel.

Tropecei com o trabalho de Golan nesse link, do site Lovely Package. O que me chamou a atenção foi a singeleza do trabalho. Tenho visto muitos trabalhos de embalagem sensacionais, mas tão complexos, e baseados em novos materiais que acabam inviabilizando que pequenos empresários se destaquem.

Michael prova que é possível fazer um trabalho sólido utilizando muito pouco. No caso dele, uma linha de produtos fitoterápicos para cães. Sua maneira simples, limpa e direta de tratar o produto adicionam muito à marca.

Na entrevista abaixo, Michael Golan fala sobre sua carreira, processo de trabalho e sobre problemas muito parecidos com os que os designers brasileiros passam todos os dias.

Propósitto - Conte-nos um pouco sobre você. Como vc se tornou um Designer Gráfico? Você trabalha sozinho, ou em um estúdio?

Michael Golan - Na verdade, eu não estava realmente interessado em design gráfico. Eu queria ser um editor ou fazer comerciais. Por um algum tipo de mistura estranha, eu acabei estudando design gráfico, e acabei me apaixonando.

Quando terminei minha faculdade, eu comecei a trabalhar como aprendiz no estúdio de David Tartakover’s. É um estúdio muito conhecido e respeitado em Israel e por todo o mundo (tartakover.co.il)/ Tartakover possui uma das maiores (senão a maior) coleção de gráficos Isralenses. Quando eu comecei, eu não fazendo nenhum tipo de trabalho de design, mas ao invés disso ele me pôs para arrumar seu arquivo. O que, devo dizer, foi muito mais interessante, pois tive acesso a muitos materiais que você só pode ver em museus. Eu aprendi muito sobre a história do Design Gráfico em Israel.

Depois que terminei meu bacharelado eu continuei trabalhando lá, desta vez fazendo trabalhos de Design. Depois de algum tempo eu mudei para outro estúdio de design. O trabalho era muito interessante, mas a carga horária era insana. Eles costumavam a ter duas pessoas trabalhando no estúdio naquela época, mas pouco depois que eu cheguei a outra pessoa se demitiu. Então, acabei tendo que fazer o trabalho de dois, indo até as onze da noite, uma da manhã rotineiramente.

Isso me convenceu a começar meu próprio estúdio. Eu não estava realmente preparado, e pra falar a verdade, nem fiz muito planejamento. Eu apenas “mergulhei naquelas águas”.

Propósitto - Como a empresa (Anima) contratou você? Você faz algum tipo de auto-promoção?

MG - Até recentemente, eu não estava fazendo nenhuma auto-promoção. Somente agora (depois de cinco anos trabalhando como freelancer) eu estou começando a entender o quanto isso é importante. No início, eu simplesmente fazia aquilo que aparecia, rezando por projetos interessantes. Eu tinha um bom relacionamento com alguns de meus professores na faculdade, de maneira que eles me indicavam para alguns trabalhos de tempos em tempos. E assim as coisas iam acontecendo.

Noga é uma treinadora de cães. Eu a conheci quando a contratamos para nos ajudar a treinar nosso cão. Tivemos uma boa conexão, e nos tornamos amigos. Sua amiga, Neomi tem uma clínica que trata cães com medicina chinesa. Elas tiveram essa ideia de comercializar a linha de produtos de cuidado para cães que elas desenvolveram ao longo dos anos, e que usavam na clínica. Então me perguntaram se eu queria fazer o Design para elas.

Propósitto - Fale um pouco sobre o processo de criação deste trabalho.

MG – Quando eu começo um projeto, eu normalmente dou uma navegada pela internet, procurando produtos do mesmo campo. Eu normalmente tenho uma ideia na cabeça, então tento desenvolvê-la. Acaba nunca ficando como era a princípio.

Propósitto - Eu notei que você escolheu um modo bastante simples, mas muito poderoso, muito tocante. Em uma época onde as embalagens estão mais e mais complexas, você acredita que exista espaço para soluções como esta?


MG –
Eu acho que existe espaço para os dois casos. Meu sonho é fazer algo complexo, mas meu trabalho sempre acaba sendo “simples” no final. Nesse caso, foi uma escolha deliberada, já que eu queria que os produtos tivessem um jeito “médico” e clean, como produtos farmacêuticos. Mas para não ficar frio, eu adicionei as ilustrações dos animais, para ganhar vida e uma sensação mais aconchegante.

Propósitto - Os clientes ficaram satisfeitos com o investimento? Em outras palavras, o quanto você acha que um bom design influencia os resultados?

MG -Os clientes ficaram muito satisfeitos com o resultado, e continuam me ligando quando precisam de materiais extras (como catálogos e adesivos). Mas não é uma questão do design ser bom ou não. É uma questão de se o cliente está feliz ou não. Existem clientes que ficam satisfeitos quando o design parece bom, mas outros, quando os prazos são cumpridos, ou se é barato etc.

É responsabilidade do designer fazer o melhor que puder. Ficar por trás de seu trabalho, de uma maneira apaixonada. Assim, com certeza os clientes também irão gostar. Clientes felizes são clientes que retornam.

Agora, se você estiver falando a respeito das vendas, um bom design pode afetar as vendas de um produto também.  Mas não vai durar se o produto não tiver seus predicados, e se apoiar somente no design para “fazer parecer bom”. Uma pessoa me perguntou, não muito tempo atrás se “bom design pode vender um mau produto”. Eu disse a ele que o design pode convencer alguém a comprar um produto. Mas acredito que se alguém compra um produto uma ou duas vezes e vê que ele não entrega o que promete, ele não tornará a comprá-lo, mesmo que tenha um bom design. No caso da Anima, isso não foi um problema, pois os produtos são muito bons, e entregam exatamente o que devem.

Propósitto – Como é a vida de um designer em seu país? As pessoas e empresas estão realmente cientes da relevância do design?

MG - Não posso dizer que a vida de um designer é fácil em Israel. Pelo que eu ouvi, vocês, do Brasil, estão enfrentando os mesmos problemas. O numero de “escolas de design” em Israel está aumentando. A cada ano, aproximadamente 700 ou mais novos designers são liberados para o mercado de trabalho. Quando você começa, normalmente trabalha por longas horas, por salário mínimo. Sempre haverá alguém mais barato que você. E a maioria dos clientes estão mais preocupados com o preço do que com a qualidade do trabalho. Eu nem me lembro quantas vezes eu ouvi um cliente me dizer “mas eu posso conseguir o mesmo por um terço do que você cobra”, e leva tempo para aprender a deixar pra lá.

Quando você é independente, você precisa aprender a ser uma pessoa de negócios também. E nem todo mundo consegue isso. Eu amo design. E quando você trabalha por si só, de repente você se encontra cuidando de contas, números, prospectando clientes etc. Acaba sobrando pouco tempo para o design. E isso pode ser bem cansativo.

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2 Responses to “Entrevista com Michael Golan, designer de Israel”

  1. Componentes Says:
    September 7th, 2010 at 9:14 pm

    Eu gostei muito deste site. Ótimo artigo. Eu recomendo. Supertech Componentes Eletrônicos.

  2. moda infantil Says:
    October 1st, 2010 at 10:54 am

    Eu estava pensando sobre istosemana passada. Legal o post. Continue o bom trabalho.

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