Entrevista com Eric Karjaluoto, criador do projeto Design Can Change

Conheci Eric Karjaluoto na How Design Conference de 2008. Ele foi um dos palestrantes, estava divulgando sua iniciativa, Design Can Change. Me chamou a atenção a paixão que ele tratava do tema, a lucidez e a alta dose de realismo, a falta de soluções mágicas.

Visitei seu site desde então, e tomei a decisão de tentar entrevistá-lo. Eric foi super atencioso, e entregou uma excelente entrevista, que apesar de ser extensa, vale muito a pena ser lida. Pensei em publicá-la em duas partes, mas no fim, vale a pena ler de uma tacada só.

Eric é dono do SmashLab, um estúdio especializado em Web em Vancouver, no Canadá. Confira a seguir essa grande entrevista.

Eric Karjaluoto e seu sócio, Eric Shelkie

Foto de Kirby Yau

Propósitto – Como você se tornou um designer? Qual é seu background em educação nesse sentido?

Eric Karjaluoto – Eu acho que sempre fui um designer – só levou algum tempo para descobrir isso. Quando criança, eu desenhava logos e criava revistas amadoras e quadrinhos com lápis e papel. Quando eu terminei a escola pública, eu escolhi estudar pintura na Universidade Emily Carr, em Vancouver.

Enquanto completava meus estudos lá (com apenas uma classe de design) eu gastei vários anos trabalhando como pintor. Isso envolvia pintar o dia inteiro, e trabalhar na produção de um jornal de noite. Esta foi uma época muito interessante, na qual eu tive a oportunidade de trabalhar em minhas pinturas, e também aprender as entradas e saídas dos softwares de design, pré-impressão e procedimentos de gráfica.

Depois de cinco anos disto, no entanto, eu decidi que queria fazer uma coisa bem feita, ao invés de correr atrás de duas buscas distintas. Foi quando comecei a falar com meu amigo (e hoje meu parceiro de negócios) Eric Shelkie sobre o quão excitante era a Web, e a possibilidade de começar um estúdio concentrado nela. Pouco tempo depois nós estávamos em nosso caminho, e foi quando nossa educação de verdade começou.

Propósitto – Quando você começou a trabalhar em assuntos relacionados com sustentabilidade? Em que ponto esse assunto se tornou uma preocupação real para você?

EK - Sustentabilidade é algo que eu sempre fui conhecedor, mas por um longo tempo, me faltaram os recursos para fazer algo a respeito. Eu acho que meus humores, e meu pensamento podem ser bem paradoxais; se por um lado eu sou um otimista a respeito de muitas coisas, por outro também me torno cínico e um pouco medroso às vezes. Este tem sido certamente o caso quanto se trata de consumo. Mesmo quando eu era mais jovem, eu olhava para o quanto nós consumimos (e gastamos) e me perguntava por quanto tempo nós conseguiríamos nos manter com este tipo de comportamento.

Em 2006, minha esposa e eu esperávamos o nascimento de nosso primeiro filho. (Nós sabíamos que, quando ele chegasse, teríamos menos oportunidades de assistir filmes em cinemas, então estávamos vendo assistindo quanto mais pudéssemos). Um deles foi “Uma Verdade Inconveniente”, do Al Gore, e teve um enorme impacto em mim. Na minha mente, Gore fez algo com esse filme que nunca tinha sido feito antes.

Não foi como se ele tivesse falado algo que nunca tinha sido dito antes. O brilho do filme era largamente em como ele havia feito. Primeiro de tudo, não havia sido feito para os “verdes”, mas ao invés disso, para a população geral. Enquanto isso, a escolha do formato foi crucial. Ao começar com um filme, e então ganhar mais profundidade em um livro, ele conseguiu que o assunto fosse palatável para qualquer um que quisesse se engajar. Mais que isso, penso, ele colocou luz sobre coisas que todos temos que estar atentos, ao mesmo tempo que sugeria o que podemos fazer para mudar as coisas para melhor. Uma coisa é falar sobre o quanto nós estamos fodidos, e bem diferente é encontrar esperança e colocar as pessoas na posição de agir.

Meu único problema com o filme é que ele mal fala alguma coisa sobre design. Provavelmente por conta da natureza generalista do público, mas parecia que ele tinha perdido alguma coisa grande, que talvez não devesse.

Propósitto – Explique o conceito por trás do projeto “Design can Change”

EK - Por volta da época em que eu vi esse filme, nós estávamos procurando por recursos em desin gráfico sustentável. Fora o Re-nourish, de Eric Benson, e a iniciativa Design by Nature, anunciada na Austrália, existia dolorosamente pouca informação disponível. Se não me falha a memória, não se conseguia encontrar um livro nas prateleiras que lidasse com esse tópico específico. (Eu devo dizer que já não é mais o caso.) Então, nossa primeira prioridade se tornou criar um site que pudesse servir como um ponto de partida para designers interessados em empregar mais práticas de sustentabilidade em seus trabalhos.

A ideia tem alguma facetas em si. Uma, como notado, foi simplesmente começar uma discussão. Outra foi facilitar conexões entre compradores de serviços de design e designers que estavam comprometidos com práticas mais sustentáveis. A outra foi servir como vitrine de projetos de design sustentáveis. Infelizmente, tivemos que em boa quantidade, “deixar a  bola cair” nesse último ponto.

Propósitto – Hoje em dia parece que todo mundo quer se proclamar “verde”. Mas quando cavamos um pouquinho, normalmente descobrimos que a maioria dessas mudanças são pouco mais do que marketing. Como podemos convencer nossos clientes a fazer mudanças reais? E como separar uma coisa da outra?

EK – Esse é um assunto enorme e muito complicado. Parte dele se relaciona com a intenção. Algumas organizações são simplesmente ignorantes sobre a questão, e sobre o que eles podem fazer a respeito. Outras estão preocupadas, mas inadvertidamente brandas, a despeito das boas intenções, porque elas não entendem as implicações do que estão dizendo ou fazendo. E então, existem aquelas organizações que simplesmente não ligam. Eles entendem perfeitamente que o que fazem causa danos ao meio-ambiente, mas fazem simplesmente uma “roupagem verde” para proteger suas marcas.

Todos esses grupos – fora o último – podem ser trabalhados. O desafio deles é em larga escala sua própria ignorância. Eu quero ser claro aqui: Eu não estou dizendo que seja estupidez, eu digo que eles simplesmente não tem a informação necessária para agir de modo mais efetivo e de forma frutífera. Então, para responder sua questão, é nosso trabalho como comunicadores, aprender o máximo que pudermos nesse tópico, e então dividir esta informação com nossos clientes, tanto diretamente (em discussões pessoais) quanto indiretamente (através de liderança). Fazendo isso, nós damos a eles os meios para mudar de verdade.

A para aqueles que se dizem “verdes” com intenções mais nefastas, precisamos de outra tática. Em última análise, eles são o inimigo, e devemos atacá-los. Nós podemos fazer isso tanto através de informação quanto por ação. Ao pedir à população que pense criticamente a respeito das mensagens com as quais eles são confrontados, nós podemos separar melhor essas mensagens que são dúbias por natureza. Eu sinceramente acredito que a maioria das pessoas se importa com essa questão, e fará boas escolhas uma vez que a trilha esteja clara. Saber quais organizações estão doentes pode habilitar os consumidores a boicotar aquelas marcas e demandar opções sustentáveis.

Propósitto – Depois que você fez desse assunto algo tão público, você notou um aumento, ou diminuição na quantidade de trabalho em seu estúdio?

EK – Fora alguma publicidade associada com esse esforço, Design Can Change teve muito pouco impacto em nosso core-business – para melhor ou pior.  Eu penso que esse esforço tem sido um ótimo “bônus” para alguns grupos que colocaram seus serviços na lista, mas acho que na maior parte, os dois negócios são vistos como atividades independentes (e largamente não-relacionadas).

Isto se deve, em parte, a uma decisão deliberada. Durante um tempo, pensamos que pudesse parecer um auto-serviço se colocásemos o SmashLAB e o Design Can Change muito próximos. Nossa preocupação era que, se não fossemos cuidadosos, os visitantes poderiam enxergar nosso esforço como uma trama para trazer trabalho para nosso estúdio. Apesar de não precisarmos nos preocupar dessa forma, também não queríamos correr o risco de comprometer a mensagem de modo algum.

De todo modo, eu preciso dizer que estamos nos soltando um pouco mais ultimamente. No futuro, eu gostaria de falar mais abertamente sobre nossos pensamentos sobre esse tópico, e amarrá-los com o expertise que podemos canalizar em nossa agência para fazer a diferença. Seria bom fazer parcerias com organizações que fazem da sustentabilidade uma preocupação central em suas operações.

Propósitto - Agora que você vê essas mudanças acontecendo de dentro, você é um otimista ou um pessimista a respeito de mudanças climáticas?

EK – Minhas emoções nesse ponto vacilam bastante. A dificuldade para mim é que, apesar de sentir uma responsabilidade de agir nesse tópico, me falta muito do conhecimento pertinente para falar de um ponto de vista devidademente acadêmico. Eu não sou um cientista, nem um expert em clima, de modo que tudo que sei é através do que leio.

Ultimamente eu tenho lido alguns livros que pintam um quadro bem negro para o próximo século. Apesar de apontarem algumas potenciais soluções de larga escala, meu medo é que o coletivo ainda não exista. Esta é uma observação que parece uma piada; é que quando eu ouço as discussões que a maioria está tendo, e a limitada mudança que estamos realmente prontos a fazer, eu temo que nós não estejamos levando esse assunto a sério o suficiente.

Nós somos uma espécie incrivelmente inovadora e que parece se adaptar muito rapidamente quando os desafios se apresentam. Tecnologias estão sendo desenvolvidaas, gente muito esperta está falando, e mudanças estão acontecendo… mas parece que lentamente demais. De novo, o que precisamos é que exista vontade de acelerar esses esforços.

Acho que vai precisar de ficar muito ruim antes que a maioria das pessoas decida agir mesmo, e aí talvez seja (se já não for) tarde demais. Minha sensação é que, quanto agirmos,  encontraremos maneiras de seguir adiante. Tragicamente, no processo, algumas das populações mais vulneráveis devem sofrer consequencias devastadoras.

Propósitto – Que  conselho você daria a designers que querem ser mais efetivos em assuntos de sustentabilidade? Por onde devem começar?

EK - Minha primeira sugestão é que comecem a ler. Agarrem um ou dois livros sobre mudança climática e comecem a cavar a respeito do que aquilo significa. O fato é que muitos designers pensam que o tópico é limitado a escolher papéis recicláveis e usar tintas a base de vegetais, quanto na verdade é um desafio enorme, sistêmico. Em minha experiência, quanto mais eu aprendo, mais eu quero aprender….e mais sofisticado fica meu pensamento. É um tópico fascinante, e talvez o desafio mais interessante que nós jamais enfrentaremos como espécie.

Minha segunda sugestão é para designers que perguntam de que lado da batalha eles querem estar. Será que eles querem um papel na sobrevivência da raça humana? Ou será que eles estão nessa por si próprios, e ninguém mais? Por um longo periodo de tempo, nossa indústria esteve presa no último papel. Nós fizemos lindos desenhos para ajudar a vender mais coisas que alguns de nós jamais precisaremos. Claro, isto é um pouco simplificado, mas não totalmente inverdade, acho que vocês devem concordar.

Bilhões de dólares são gastos em propaganda todo ano, para estimular o consumo de combustível. A maioria disso serve ao único propósito de ajudar alguns poucos a acumular uma riqueza absurda. A despeito do que alguns foram levados a acreditar, isso tem um custo muito real. E frequentemente, esse custo é pago por todo o resto do mundo – mais ainda pelos mais pobres – sem mencionar todas as outras formas de vida desse planeta.

Nós precisamos ser a geração que se levanta para o desafio, e para designers, que oportunidade é melhor para criar um legado para gerações futuras? Talvez, por um momento, nós possamos colocar de lado nosso trabalho de vender refrigerantes, tênis, e “os últimos e melhores” gadgets, e trabalhar no mais importante campanha de publicidade de todos os tempos: a educação e mobilização dos habitantes da Terra em extender seu tempo nesse (formidável) planeta.

Propósitto – Você conhece algo sobre o Brasil, ou algum designer daqui? Qual sua perspectiva em o que está acontecendo por aqui?

EK – Nunca tive o privilégio de visitar o Brasil, e me fico embaraçado em dizer que sei muito pouco a respeito do que os designers daí estão fazendo. Então, vou virar a mesa. Em seu novo blog, talvez você possa escrever alguns posts sobre o que está acontecendo por aí, de maneira que pessoas como eu possam ficar mais educados sobre o estado do design sustentável no Brasil. O que você acha?

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Eric, no que depender de nós, da Propósitto, o desafio está aceito!

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7 Responses to “Entrevista com Eric Karjaluoto, criador do projeto Design Can Change”

  1. Gabi Says:
    October 20th, 2010 at 12:10 am

    nossa, que cabeça fantástica esse cara tem heim? Gostei muito do ponto de vista dele e de suas idéias, parabéns pelo post, mandou bem, bjs, te amo!

  2. ideasonideas - Eric Karjaluoto discusses design, brands and experience » Blog Archive » Lost in Translation? Says:
    October 22nd, 2010 at 1:18 pm

    [...] my best to respond succinctly, but (once again) got carried away. He has since translated this interview into Portuguese, but I wanted to share it here as well, for interested English speaking parties. [...]

  3. Saito Takeuchi Says:
    October 22nd, 2010 at 7:20 pm

    Muito bom =)

    Cheguei na entrevista pelo próprio blog do Eric e dos muitos inúmeros blogs que tenho no meu reader o dele é definitivamente o que mais gosto.

    Estive hoje numa palestra em Curitiba sobre embalagens sustentáveis, e que decepção… Foi basicamente 3 empresas mostrando cases de como elas eram “verdes” (apesar de um papel feito com polimeros reciclados ser bonito). Aqui no Brasil com certeza temos muito mais desses “vilões” (talvez sem aspas na realidade) que se vestem de ecologicamente corretos e pouco fazem pra ajudar. Chega a ser triste pensar que talvez aqui no Brasil a mentalidade das pessoas seja ainda pior que no Canadá, ou no resto do Ocidente (Norte-Sul, não Oeste-Leste).

    Uhn, não sei de que cidade você é, mas estamos hospedando a Bienal Brasileira de Design esse ano, e o tema principal é justamente Design, Inovação e Sustentabilidade. Você deveria ver a mostra principal, é algo bem triste no geral, principalmente se comparado com uma exposição da Dinamarca com o mesmissimo tema que fica na sala ao lado.

    De qualquer forma, boa entrevista, é sempre bom saber que não se está sozinho.

  4. Rodrigo Says:
    October 25th, 2010 at 8:39 pm

    Olá Saito, obrigado pela visita.
    Seu comentário me deixou pensando bastante no status que essa matéria anda. É desalentador ver que andamos muito pouco numa estrada que é bom longa. É dificil ver alguma luz de iniciativas tão tímidas. Parece que falta alguma coisa maior que “dê liga” em todo o resto.
    Acabei gerando um novo post… Espero que você possa lê-lo. Estará no ar nos próximos dias.

  5. Leo Says:
    October 25th, 2010 at 10:59 pm

    Muito interessante. Bacana mesmo.
    Atualmente, as informações sobre Mudanças Climáticas são extremamente acessíveis. Aliás, quando ele fala sobre ser tarde demais para agir, lembro o sociólogo britânico, Anthony Giddens, que entende que vivemos um paradoxo, “enquanto há tempo, as pessoas não têm pressa. Quando tiverem pressa, não haverá mais tempo”… E aí, o que fazemos agora?

    Grande abraço e parabéns.

  6. Rodrigo Says:
    October 26th, 2010 at 9:33 am

    Gabi, ele é mais realista do que todos os designers que li até agora. Nós, designers, enfrentamos o paradigma de sermos vendedores e formadores de opinião ao mesmo tempo. E aí, o que vamos vender? O que o povo quer, ou o que o povo precisa?

  7. O novo paradigma da sustentabilidade | Propositto Design Says:
    November 10th, 2010 at 3:08 pm

    [...] by Rodrigo | Filed under Uncategorized TweetDepois de ler a entrevista do Eric Karjaluoto, é impossível não ficar com uma pulga atrás da orelha. Sem ficar pensando até que ponto você [...]

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