Propósitto entrevista: Carlos Segura

Há muitos anos, quando eu estava na faculdade, fui a uma palestra com alguns nomes de peso no mercado. Um deles era Carlos Segura. Me lembro até hoje do impacto que teve em minha mente. Sempre muito prolixo, Segura era engraçado, vibrante, apaixonado, e muito próximo do profissional que eu gostaria de ser.

Segura é um Cubano que migrou para os Estados Unidos aos nove anos, e fez uma carreira das mais sólidas na conconrrida indústria da publicidade Americana. Trabalhou na BBDO, Marsteller, Foote Cone & Belding, Young & Rubicam, Ketchum, e DDB Needham, até abrir seu próprio estúdio em Chicago, o Segura-Inc. Também é dono da T-26, uma type foundry das mais criativas do mercado.

Com a aproximação do aniversário de um ano da Propósitto, eu queria fazer uma entrevista especial para celebrar o evento. O caso é que (eu achava) que Segura não responderia (isso já aconteceu com outros nomes de peso antes). Ledo engano. Não só ele me respondeu quase imediatamente, como foi um dos mais acessíveis profissionais que eu entrevistei.

Carlos Segura fala de design de forma apaixonada, quente, mesmo após todos esses anos de janela. E me fez relembrar aquela noite, ainda na faculdade, o quanto eu saí entusiasmado. E hoje, torna a me impactar, quase me falando “agora que você é dono do seu estúdio, é que a diversão de verdade começa”. Confira a entrevista a seguir:

Como você decidiu se tornar um designer gráfico? Quando você percebeu sua paixão por tipografia?

Quando eu estava crescendo em Miami, bem jovem, eu me tornei membro de um grupo musical chamado Clockwork, como roadie do baterista, e eventualmente acabei o substituindo. Esta banda era um negócio de verdade, e nós a tratávamos desta forma, tínhamos dois serviços de gerenciamento, um formato bastante estrito, procedimentos e calendários. Nós eramos bem grandes no cenário musical de Miami nos anos setenta, éramos agendados com dois anos de antecedência.

Isto nos deu muitas responsabilidades, mas também um monte de deveres, e os meus eram três… eu era o baterista, dirigia o caminhão dos equipamentos e promovia nossos shows.

Nessa época eu não tinha a menor ideia de que estava fazendo “design gráfico” (já que eu nem sabia o que isso era). Eu estava simplesmente fazendo que as pessoas soubessem onde nós estaríamos tocando (um pouco parecido com os flyers de raves de hoje em dia).

Mas de alguma forma, meus flyers estavam indo para o topo das mais reconhecidas promoções de bandas da época, e eu fiquei conhecido por esses impressos em preto e branco.

Mais ou menos doze anos depois, quando eu deixei a banda, eu tinha um portfolio cheio dessas criações, e meu padrinho sugeriu que eu fizesse uma entrevista numa firma de design. Eu fiz, e consegui meu primeiro trabalho real numa empresa de engenharia em Nova Orleans como seu designer chefe.

Enquanto eu trabalhava lá, eu respondi a um anúncio de jornal de Baton Rouge que procurava por um diretor de arte para uma pequena agência, e consegui o trabalho. Durante meus nove meses lá, nós fizemos inúmeros projetos, entramos na competição do Clube da Propaganda, e ganhamos mais prêmios do que várias outras agências naquele mercado, então a questão apareceu: “quem é este cara que nós nunca ouvimos falar?”. Uma revista da área fez uma pequena estória sobre a controvérsia, e uma agência de propaganda em Chicago leu a respeito, me contatou, me fez uma oferta, e lá fui eu para Chicago em 1980.

Você trabalhou em várias das maiores agências dos Estados Unidos. Como foi o processo de decisão de partir para carreira solo? Como foram os primeiros dias como um dono de estúdio?

Eu entrei no ramo da publicidade puramente por acaso, e simplesmente pelo fato de que nunca tive nenhum treinamento formal ou educação no assunto, eu realmente não sabia a diferença entre publicidade e design. Eu apenas queria um meio para expressar minha criatividade e precisava de um emprego, então eu apenas procurei um lugar para trabalhar.

Enquanto estava lá, eu tive bastante treinamento sobre “o trabalho”, e comecei a ver  as diferenças, na maior parte em como (ou o processo criativo) me fazia me sentir. Design começou a parecer mais como uma expressão pessoal e uma experiência orgânica versus o metódico, o empacotado  – e frequentemente focado nas necessidades das massas – mercado da criação publicitária. Não quero desrespeitar nenhuma carreira, mas é simplesmente diferente.

Então, por anos eu pensei em largar tudo e começar minha própria loja, mas esses eram os bons velhos tempos do negócio de publicidade, e as coisas estavam bem. Muito bem. Eu fiquei confortável demais e aguentei mais do que deveria, mas minha infelicidade tirava o melhor de mim, e em 1990 eu me demiti, e comecei a Segura Inc.

Eu fiquei ocupado desde o primeiro dia. Eu tinha sorte. Durante meu tempo no mundo da publicidade, eu escolhi me especializar em impressos. Isso, numa época em que a televisão era a rainha (com spots de TV de 60 segundos como norma) e o “multimídia” começando a ver a luz do dia. Cada diretor queria sair para gravar um comercial. Eu queria produzir um anúncio (e nessa época, era tudo feito a mão).

Até hoje, existe uma alegria particular que vem de dirigir arte, desenhar, elaborar e dirigir a criação de tipos – é um meio de comunicação que é muito especial e que eu não encontro em outras formas de expressão. Uma vez que um layout vem a vida, você sente que é parte de você. Eu gosto dessa sensação. E tenho essa reputação.

Quando a notícia de que eu tinha saído, e que era, em essência, um “agente livre”, eu recebi chamados das agências pedindo para que eu fizesse seus impressos, e fiquei grandemente envolvido em seus nichos de negócios. O fluxo de trabalho continuava crescendo cada ano, e apesar de ter simplesmente coisas demais para mencionar, era basicamente trabalho de agência no começo, e então foi mudando para direção de arte para clientes de todo lugar do mundo.

Quais são as grandes diferenças de trabalhar para grandes corporações e ser dono de seu próprio negócio?

Quando você é dono do seu negócio, você faz tudo. Você tem que fazer.

Ter  o seu próprio negócio será a coisa mais recompensadora que você fará na sua vida. Mesmo se você deixar de lado as recompensas finaceiras, as liberdades e opções que isso traz a sua vida não têm preço. Apenas saiba que nunca trabalhará mais duro em sua vida, porque, de repente, tudo será problema seu.

Eu imagino que hoje em dia você seja um executivo, não apenas uma força criativa em seu trabalho. Como você divide seu tempo entre tarefas administrativas e o processos criativos?

É um pouco do que eu falei acima, mas controlar seu tamanho é a melhor forma de gerenciar seu tempo e tarefas. Não cresça para ser grande, cresça para ser formidável.

Faça as coisas que são mais importantes, que signifiquem mais para você e tenha algo de artesão, de qualidade neles. Fazer pelo menos um pouco desses por ano será uma afirmação muito mais poderosa do que fazer centenas de pequenos e típicos projetos. Isso, qualquer um pode fazer.

Com a explosão na venda de tablets, as pessoas tem lido cada vez mais coisas diretamente na tela. Quais são, na sua opinião, as maiores diferenças em desenhar fontes para telas?

Existe um bocado de óbvias diferenças tecnológicas, mas a “verdade” da tipografia está no tipo, não no veículo que o entrega. O que eu quero dizer é que se você planeja usar uma tipografia para texto, ela precisa fazer o trabalho dela como tal, seja em um jornal, seja num iPad.

Quando estive em sua palestra, você falou em experimentar coisas radicais (me lembro de uma capa de CD que usou um esquilo morto escaneado). Você ainda encontra espaço para esse tipo de experimentação?

Com certeza. Criação vem de tudo.

Todos os dias, criativos pensam dos mais variados modos. Eu tendo a processar pensamentos por um bom tempo antes de chegar no coração da matéria, e o modo que faço isso é fechar meus olhos e “escapar”. Para mim, é quando eu começo o processo de ir dormir. Eu tropeço nesse lugar temporário de “pensamentos” que eu frequentemente não consigo visitar durante meus dias ocupados.

É bastante sossegado, e muito otimista, porque me faz sentir como se eu pudesse fazer tudo. Aparte de todas as limitações “reais” que o mundo coloca em mim.

 

As ideias nascem desse sentimento autêntico, e não “preparado” ou “forçado” por causa de uma tarefa ou prazo.

Em dois exemplos específicos, foi assim que eu dei a luz a nossas companhias irmãs, http://www.5inch.com and http://www.t26.com.

Quem são suas maiores influencias em design e tipografia? E quais outras atividades inspiram você?

Não é bem “quem”, mas mais “o que”, e a resposta é meio cliché. Tudo. Eu acho que meio limitante excluir varias fontes como inspiração. Não é o que criativos fazem, já que eu acredito que todos os criativos tendem a ser influenciados pelos seus arredores como um todo.

Eu estou em meu computador quase o dia inteiro exceto quando dormindo). Eu faço uma quantidade tremenda de posts em blogs (para todos os meus sites), então a quantidade de inputs fica quase surreal. Me expõe a todas as grandes coisas que os humanos podem fazer, e isso é bem impressionante.

Existe algum trabalho de sonho que você ainda não fez? O que seria?

Eu sempre quis ser um engenheiro de som ou editor

Qual é o seu conselho para jovens designers que querem construir uma carreira em tipografia?

Olhe tudo de muitos ângulos e rapidamente você terá um ângulo próprio. Não deixe coisas acontecerem com você. Faça coisas acontecem com você. Se você for sonhar, sonhe grande, é de graça.

Eu tenho alguns, mas um recente comentário de Chris Economaki faz tudo fazer sentido… “Não gaste tempo ficando pronto. Esteja sempre pronto”.

Lembre-se…. mentes pequenas matam grandes ideias.

 

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