Quarenta.

Essa música é do último disco do John Mayer, que saiu esse mês, e caiu como uma luva para o que ando sentindo, à beira de meus 40 anos.

40 anos não dizem nada para o mundo, para o corpo, para a natureza. Mas para a gente, que viveu todos eles, dá uma inevitável sensação de antiguidade. Para mim, que tenho uma memória muito boa para coisas do passado, mais ainda. E de tanta coisa que aconteceu na minha vida, tanta caminhada, tantos lugares diferentes, acho até que 40 é pouco. Parece mais. O que não é ruim, pelo contrário. Difícil seria chegar aqui achando que vivi de menos. Que estou no troco.

Daí a necessidade daquela parada para balanço. Meio que como responder a um teste, ver se passei de ano, se posso continuar em direção aos próximos 40.

Ter me tornado empresário nos últimos 2 anos mudou muito as perspectivas da vida. Ficar muito tempo sozinho, com metas que não estão escritas em nenhum lugar, sem  ninguém para me  motivar a não ser eu mesmo, tudo isso muda sua dinâmica em relação a vida. Resolvi aproveitar o ensejo dos meus aniversários (a Propósitto fez 2 anos dia 8 de junho, e eu dia 15) para relembrar o que os 2 anos de empresário, somados com os 40 de vida estão me ensinando.

A primeira lição é justamente quanto ao tempo. 

Tristes acontecimentos próximos me lembraram do quanto esse recurso é finito. Quanto realmente ele é mais que dinheiro. Não tenho problema nenhum com o lado biológico da coisa. Não me assusta envelhecer. O que tira o sono é ver o tempo passar. A gente se acostumou a contar os minutos perdidos. Mesmo quanto está curtindo um momento bom, olha no relógio pra ver o que está perdendo no trabalho, na novela, na internet. A gente sempre sente que não tem tempo para algo. Precisamos rever essa relação.

Por mais lugar comum que isso pode parecer, o amanhã (quase) não existe. Quando vamos “deixando pra amanhã” coisas que sabemos que nos farão bem, mas que são engolidas pelo cotidiano, estamos deixando “pra nunca”. Acreditem: o nunca existe, e ele dói muito.

Não tenho tudo que amo. Mas dane-se.

Há muitos verões atrás, o Casseta e Planeta tinha uma camiseta que dizia algo assim (talvez com um vocabulário um pouco mais chulo).

É a mais pura verdade.

Passamos a vida querendo. E querer é do ser humano, é do jogo. Mas o erro é quando você mede o sucesso de alguém por essa régua. Isso é uma das questões que mais me move. Todo empresário tem o sucesso como combustível. Ser bem sucedidos é a recompensa, a certeza de que o trabalho foi bem feito e resultou em algum tipo de dividendo. Mas isso pode virar um vício, e o sucesso pelo sucesso pode te afastar muito da pessoa que você queria ser.

Continuo querendo. E muito. Não viajei tanto quanto queria, não comprei tudo que gostaria. Vou continuar correndo atrás.

Mas tenho uma família linda, uma casa maior do que preciso, com um pedacinho de grama pra por os pés no verão e concreto firme pra me esquentar no inverno, moro numa cidade calma, que escolhi para mim e para os meus, e tenho um cachorro que me recebe todos os dias como se eu estivesse voltando da guerra. Talvez não seja o sinônimo de sucesso para muitos, mas é o bastante para me deixar feliz. Você nunca vai ter tudo que quer, get over it!

Aprendi a ser bom naquilo que sou bom, não naquilo que eu gostaria de ser. 

Vi o Osvaldo Montenegro falando isso, e achei espetacular. Ele disse “eu queria ser bom em blues. Mas não nasci em New Orleans, não sou preto, então vou ser bom no que eu sei fazer”. Eu nunca tinha pensado nisso. Quando saímos da faculdade, estamos sempre prontos para sermos designers superstars, desenhar marcas interplanetárias. Se dependesse de mim, eu queria ser ilustrador, daqueles que fazem dois grandes projetos por mês. Mas nem eu tenho o talento necessário para isso, nem minha vida me levou a essa escolha. Mas eu poderia estar batendo cabeça até hoje. Alguns dizem que isso é abrir mão de sonhos. Para mim é uma correção de percurso. Não adianta ser um missil teleguiado se você erra o alvo no final.

Mais do que tudo, isso me leva a outra sacada:

Se aceitar é bem dificil. 

Eu sempre vivi minha vida tentando estar a altura de quem veio antes de mim. De quem andava ao meu lado. Sempre pensei demais antes de qualquer movimento, sempre tomei um cuidado enorme de não machucar ninguém na caminhada. Agora chega. Se consegui estar no mesmo pé que meus modelos de conduta, ótimo. Se não, é hora de viver minha vida, criar meu patamar. Mesmo que isso signifique magoar alguns por aí, pisar em alguns calos. Já posso me dar a esse luxo.

Como diz o  John Mayer na musica “I’m a good man, with a good heart“. Saber disso me basta. Não preciso provar pra ninguém mais.  E se o calo que eu pisar por acaso for seu, desculpa aí. Não é por sua causa. É por minha.

Prepare-se para ser deixado pra trás. Tome cuidado com o modo que você deixa.

O R.E.M tem uma música chamada “Leaving New York” em que diz “it’s easy to leave, than to be left behind“. Num passado próximo, por questões profissionais, fui deixado. Fui arrancado de um projeto de vida que eu tinha traçado, e que achava que estava indo bem, me dedicando. E achei a maneira como tudo foi conduzido muito, muito aquém do que eu esperava. E me causou, por muito tempo, muita dor. Passou, como toda dor passa, mas me colocou pra pensar em como eu estava com a guarda baixa, e o modo que deixamos as pessoas saírem da nossa vida, profissional ou pessoal.

Fazendo de qualquer jeito, deixar é mais fácil que ser deixado. Se você se preocupa com o ser humano que está deixando, não.

De um modo ou de outro, é melhor estar preparado. Dois anos depois, posso dizer que só me ajudou. Quando você fica sem nada, você usa qualquer coisa para se mover, nem que seja a raiva, a frustração, a vontade de provar que é capaz, mesmo que a outra parte da história não esteja nem aí. Mas seria melhor usar a compreensão e o apoio. Nesse quesito, só posso agradecer quem esteve aqui, todos os dias ao meu lado, aguentando meus dias sombrios. Dando nomes aos bois, obrigado Gabriela e Francisco, eu amo vocês dois.

Da raiva para o desafio.

Hoje eu tenho uma empresa que começa a andar por suas pernas. Tenho clientes fiéis e tenho trabalhado em projetos muito diversos. Sempre trabalhei em empresas de um setor determinado. Isso deixa seu trabalho com um foco mais restrito. Estou finalmente cumprindo a missão para a qual me formei. Experimentando design em todos os sabores e todas as formas. Algumas assustam a princípio, parece que não vai dar. Mas o motor passou a ser o desafio, a raiva ficou pra trás.

Tenho projetos caminhando de uma forma que aos vinte anos de idade jamais tive. O principal deles é o TheDial, que depois de quase dois anos de dedicação está no ar, e é meu grande xodó. Se antes eu achava que tinha uma estrada pavimentada para percorrer, hoje me encontro com bifurcações e destinos que eu nem pensava que existiam. E estou descobrindo que as vezes a gente precisa percorrer mais de uma estrada ao mesmo tempo. O carro pode não andar tão rápido quanto antes (ainda), mas a vista… ah, essa é bem melhor.

Nossos dias não estão contados. No entato, a gente os conta com fervor.

Somos humanos, precisamos de marcos. Somos parte da natureza, e ela tem ciclos. Ciclos fazem sentido, mesmo quando nós mesmos é que os criamos. Chego aos 40 com uma sensação de início de ciclo, muito mais do que fim.

Estou mais otimista, sou dono do meu tempo e do meu futuro. A peneira por onde passo meus amigos ficou mais fina, mas aqueles que passaram por ela sabem que os tenho em meu coração independente das distâncias ou dos tempos que nos separam. Estou aprendendo a amar os outros da forma que eles são, e não como eu gostaria que eles fossem.

Quando se é muito jovem, temos a necessidade de mostrar pro mundo inteiro nossos sentimentos, por isso cantamos tão alto, nos balançamos em público, nos vestimos de maneiras tão estranhas.

A maturidade me mostrou que eu posso andar bem quietinho, numa estrada que é só minha, assoviando uma melodia que só eu conheço. Feliz, por mim.

Sou um cara bom, com um coração bom. “My shadow days are over now“.

 

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2 Responses to “Quarenta.”

  1. Pepé Says:
    June 13th, 2012 at 3:24 pm

    Muito bom, amor. Um dos (não, o melhor) texto que já escreveu nos últimos quase 20 anos que estamos juntos.
    Fico feliz em fazer parte da sua vida e ter convivido com tudo isso. Assim, posso lhe dizer que vivendo isso tudo junto de ti, pude aprender com vc algumas coisas e impulsionar outras e ir nos moldando para os próximos 40 anos que nos esperam (juntos!).
    Não dizem que após os 40 é a melhor fase da vida, então, está chegando e a gente vai passar por mais essa, facil fácil e feliz.
    Te amo.
    Feliz 40 anos!!!!

  2. Rosaria Ribeiro Says:
    June 15th, 2012 at 12:48 pm

    Lindo, filho!!! Verdade nua e crua…Temos todas as idades dentro de nós. Estão aí, dentro de vc , todas elas. E em cada ciclo uma historia. mais madura, mais realista e mais bonita, porque a dádiva é estar vivo. Vivendo cada minuto intensamente pois só ele conta. Conviver com vc nos faz seres humanos melhores. Obrigada e muita LUZ !
    Te amo!
    Parabens pelos seus quarentinha.

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